Apesar da fala meio embolada, Mário Carneiro (1930-2007) era um ótimo conversador. Eu o entrevistei largamente para o meu livro sobre Walter Lima Jr. e, posteriormente a sua morte, debrucei-me sobre as relações entre sua pintura e seu cinema para o livro Mário Carneiro: Trânsitos. Um homem gentil, descontraído e simples, apesar de ter uma firme consciência do seu valor como artista das imagens.
Essas qualidades afloram luminosamente nas conversas que Beth Formaggini teve com ele diante de uma câmera. Esse material, junto a trechos de outras entrevistas, formam a base de Mário Carneiro – Gravura Feita com Luz.
Sentado ao lado de alguns quadros, Mario comenta sua concepção de pintura e seu método de criação que combina erudição com intuição. Conta como se iniciou nessa arte ainda menino e como mais tarde foi abduzido pelo cinema no alvorecer do Cinema Novo. Ele repassa seu aprendizado com Iberê Camargo (“aprendi a ter certezas”), as influências de Goeldi, sua recusa à “perfumaria das cinco da tarde” (os artifícios para se obter a “bela imagem”) e seu interesse em preservar a “pulsão infantil” que lhe fornecia a necessária energia criativa. Cenas de filmes de família ajudam a compor uma leve tintura biográfica.
A montagem de Flavia Celestino, apesar de algumas escolhas discutíveis, permite perceber as relações entre as imagens criadas por Mario nas telas da pintura e do cinema. “Cinema é gravura sobre o filme”, costumava ele dizer. Trechos generosos de Porto das Caixas, Arraial do Cabo e O Padre e a Moça, associados a quadros e gravuras, ilustram esse parentesco.
Senti falta do pensamento de Mário sobre o uso da cor, e para isso A Casa Assassinada, de Paulo Cesar Saraceni, ausente no documentário, seria um divisor de águas fundamental. Em compensação, temos uma ótima exemplificação de como o arquiteto Mário sublimou esse ofício filmando maravilhosamente as edificações de Capitu e O Padre e a Moça, entre outros.
Num filme dominado pela voz malemolente de Mário, a trilha sonora da banda Hurtmold aquece os interstícios com sonoridades que variam entre o rock, o jazz e a música eletrônica. A música faz eco à aspereza plástica e temática das telas, gravuras e desenhos de Mário. Um “vocabulário meio esquisito”, como ele diz, mas cheio de uma força estranha. O filme da Beth delineia a figura de Mário em traços fortes.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/mario-carneiro-gravura-feita-de-luz




