Homens corajosos podiam vestir roupas de cores berrantes, cortes arrojados, tecidos transparentes, calças sensuais… Assim propunha a grife Mr. Wonderful em fins dos anos 1970, estraçalhando a caretice tradicional da moda masculina. Por trás da proposta estava Luiz de Freitas, o primeiro estilista negro brasileiro a ganhar destaque nacional e internacional. Aos 84 anos, ele relembrou sua trajetória e sustentou suas ideias para a documentarista Susanna Lira.
Na verdade, Susanna usou o dispositivo da interposição, fazendo com que outras pessoas o entrevistassem/conversassem com ele. O dançarino Carlinhos de Jesus, o estilista Jubba Sam, o ex-namorado Carlos Targa, a influencer de moda Josy Ramos, a biógrafa Dininha Morgado e a atriz e ex-modelo Veluma Nunes têm encontros recheados de memórias com Luiz. A cena em que ele volta a vestir Veluma com um de seus modelos é particularmente cativante.
O documentário conta com outros recursos espertos para fugir do convencional. O cenógrafo e ator Raphael Elias não só dirige perguntas a Luiz, como também faz o papel dele mais jovem, intercalando com o próprio em alguns momentos. Para restituir um pouco do clima que cercava Luiz no auge da Mr. Wonderful, atores vivem devaneios festivos queer em slow motion e soft focus. A militância do estilista pelo acesso aos “coqueteis” na época da Aids e o episódio em que Lennie Dale dançou nu em frente a sua loja de Ipanema também são relembrados em pequenas encenações.
Embora não incorpore materiais de arquivos suficientes para dar conta da ousadia e do sucesso da moda de Luiz no Brasil e no exterior, o filme procura ilustrar o quanto pode nas cenas filmadas atualmente, destacando detalhes do vestuário e dos adereços que fizeram a fama da Mr. Wonderful. Um estilo que deu liberdade principalmente aos homens de qualquer orientação sexual.
Para além da moda, dos clientes famosos, da homossexualidade assumida e das festas de arromba que promovia, Luiz de Freitas ficou famoso por frases como “depois que inventaram a palavra básico, a moda acabou”. Seus tempos áureos de empreendedor, quando teve uma fábrica com cerca de 300 empregados e lojas no Brasil e em outros países, também ficaram para trás. Ele hoje é um homem pobre, que voltou a viver numa casa simples no município fluminense de Pau Grande, onde nasceu.
Tive a impressão de que Mr. Wonderful, o filme, poderia ser um pouco mais longo e mais rico na pesquisa de imagens para dimensionar visualmente o que é falado. Ainda assim, é uma boa introdução ao universo desse criador que sempre apostou na ousadia, literalmente dos pés à cabeça.




