Durante dez anos, entre 2014 e 2024, a cineasta Juliana Borges acompanhou a vida de Mouhamadou Mounir Ismael, refugiado africano que em 2014 vivia em São Paulo. No documentário Mounir, somos convidados a seguir o que ela captou do itinerário singular do rapaz. A experiência é interessante por nos colocar em dois lugares ao mesmo tempo: no que vemos e ouvimos de Mounir, e no que deixamos de saber sobre ele.
Mounir é um personagem quase inacreditável. Sua autonarrativa se aproxima da autoficção e se completa como uma incógnita. E é justamente aí, nesse lusco-fusco entre o claro e o oculto, que o filme nos captura.
Logo no início, Mounir nos mostra seu passaporte de cidadão da República Centro-Africana. Mas quando ele decide visitar os parentes depois de 15 anos ausente, é para Camarões que ele segue. Sua história de fuga aos 15 anos, clandestino num navio do qual foi expulso e passou seis dias à deriva em alto mar, não combina com a coleção de tênis, cintos de grife e roupas luxuosas com que ele desfila em São Paulo, devidamente naturalizado brasileiro.
As dúvidas se acumulam em nossa cabeça. Mounir fugiu do Congo numa roda de avião. Já esteve em Nova York, Dubai, Paris… Um vídeo típico de influencer bem-sucedido aparece na tela. Ele pagou a viagem de Juliana a Camarões para a emocionada visita à família muçulmana. Cenas memoráveis se passam na casa onde moram dezenas de parentes agradecidos pela ajuda financeira que Mounir enviava do Brasil. Ele se orgulhava de ser o super-herói da família. As lágrimas são sinceras. Mas logo em seguida vemos Mounir acumulando evasivas sobre seu estado e sua trajetória.
A certa altura, Juliana perde contato e descobre as dificuldades por que ele passa com a lei na Europa, longe da esposa brasileira e do filho. Ainda assim, ele encontra quem dê prosseguimento às filmagens em Paris. Dois anos depois, já está no Quênia e a situação é inteiramente outra.
Afinal, quem é Mounir Ismael? Nem mesmo sua mulher sabia dizer.
Eis um retrato humano difícil, que Juliana (uma das diretoras do Festival Citronela.doc) trata com muita destreza na exposição da aventura pessoal e na preservação dos enigmas. A alternância entre proximidade e distância cria um movimento atraente para o espectador, dividido entre a simpatia do personagem e a desconfiança quanto a sua história.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/mounir




