No bairro de Sepetiba, Zona Oeste do Rio de Janeiro, fica o terreiro de umbanda Cercado do Boiadeiro, importante reduto de resistência da cultura negra carioca. Ali uma família muito especial mantém vivo o legado de sua fundadora, combinando a religiosidade com a arte. Francisca Xavier Queiroz, a Chica Xavier (1932-2020), foi uma mãe de santo, atriz, servidora pública e ativista cheia de carisma e empatia.
O documentário dirigido por seu filho, o cineasta e educador Clementino Júnior, faz jus à memória dessa “rainha” de palco e terreiro. Signos de uma estética da umbanda emolduram a história de Chica Xavier como contada por seus familiares, tanto naturais quanto “do coração”.
Clementino Kelé, o marido e parceiro por seis décadas, dá testemunhos cheios de um colorido afetuoso sobre a companheira. Eles vieram juntos da Bahia para o Rio em 1953 e traçaram seus caminhos entre a arte dramática e os rituais de matriz africana. Chica estudou com Pascoal Carlos Magno e, junto com o marido, estrelou a célebre montagem de Orfeu da Conceição no Theatro Municipal do Rio em 1956.
Entre seus papéis célebres estão a mãe de santo Magé Bassã da minissérie Tenda dos Milagres e a mulher de Lino (interpretado por Clementino Kelé) no clássico filme Assalto ao Trem Pagador. Em Amor e Fé: Chica Xavier, vemos uma riqueza de cenas de novelas em que Chica deu nobreza a papéis ainda estigmatizados de mulher negra. Com frequência, viveu personagens próximos de sua condição de sacerdotisa da umbanda.
Ao longo de sua vida no Rio, Chica adotou filhos “do coração”, como Miguel Fallabela e Cosme dos Santos, que falam comovidos sobre seus laços com a “mãe”. A ideia de família atravessa o filme de ponta a ponta, culminando com os testemunhos de Luana Xavier, também atriz e sucessora da avó no comando do terreiro.
Além da simpatia de Chica e da importância de sua história, inclusive como conselheira da Fundação Palmares, Amor e Fé: Chica Xavier se destaca pela sobriedade com que trata o formato biográfico. Na montagem fluente de depoimentos e materiais de arquivo, não há ênfase no engrandecimento da personagem, mas sim no seu caráter humanista. Seria tentador incluir imagens do desfile das duas escolas de samba que a homenagearam em 1999 e 2020. Ou os vários tributos que lhe prestaram em vida.
Clementino Júnior não conduziu seu filme como um desfile rumo à Apoteose. O clímax é emocional em escala humana e íntima. Nós, espectadores, somos levados a admirar e compartilhar o sentimento bonito de uma família que se expande pela arte e pela espiritualidade.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/amor-e-fe-chica-xavier





Eu fiquei emocionada com a crítica e louca pra ver o documentário! Obrigada, Carlos, excelente trabalho.
Vale mesmo a pena, Katinha.
Muito obrigado Carlos. 🖤❤️