Festival do Rio: “Talismã”

A pequena Sophia Fuggacy é um trunfo de ouro nas mãos de Thais Fujinaga para a realização de Talismã. A atriz mirim, já com dois anos de experiência, esbanja carisma e espontaneidade no papel de Pina, menina de seis anos que vive com a mãe solo, Tereza (Fernanda Chicolet, também autora do argumento), e o avô (Stepan Nercessian) nos arredores de Porto Alegre. A primeira imagem nos mostra Pina gravando uma dancinha esperta no celular.

O que a mãe não sabe é que ela já se inscreveu num programa de talentos infantis chamado Talismã Kids. O exemplo vem de casa. Tereza é uma tremenda dançarina de carreira frustrada, que toca com dificuldade uma escola de dança e completa o orçamento com artesanato doméstico. Ajudar Pina na competição da TV será uma forma não só de impulsionar o dom da menina, mas também de remediar o seu próprio insucesso.

Há aí uma semelhança com o clássico neorrealista Belíssima, de Visconti, em que Anna Magnani revira céus e terras para sua filha passar num teste de Cinecittà. Com duas diferenças básicas: Tereza não se empenha só pela filha, mas também por si mesma – o que, a meu ver, levará ao ponto mais frágil do roteiro, no momento decisivo do certame. A outra diferença é que Visconti denuncia os mecanismos de ilusão e exploração do cinema comercial, enquanto a visão da TV em Talismã é simplesmente edulcorada.

Conta a favor do filme a boa química entre os três nomes principais do elenco. Isso favorece o tema da relação mãe-filha, marcada ora por gestos de solidariedade e ajuda recíproca, ora por momentos de conflito. Se Pina herda da mãe a aptidão para dançar, Tereza se acumplicia à filha em atos como o corte da franja. O fato de que a mãe queira ficar parecida com a garota trai uma pulsão um tanto patética de narcisismo materno.

Os diálogos não primam pela originalidade, mas por um naturalismo corriqueiro, o que funcionava melhor no filme anterior de Thais, A Felicidade das Coisas. A quantidade de vezes que personagens respondem com “Sim” desmonta a intenção de falar como se fala de verdade. Volta e meia, surge um colorido regional na caracterização do entorno midiático de Guaíba, enquanto a direção de arte provê outro tipo de colorido na cenografia e nos figurinos.

Dá gosto ver Fernanda dançar, sozinha ou com o parceiro (Allan Souza Lima). Mas o talismã que define a sorte do filme são mesmo o desembaraço e a graciosidade de Sophia Fuggacy.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/talisma

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