Festival do Rio: “London”

London tem uma performance visceral e ao mesmo tempo inteiramente controlada do ator, roteirista e codiretor Victor Di Marco. Como seu personagem no filme, ele sofre de distonia generalizada, enfermidade que causa problemas na locomoção, nos movimentos corporais e na fala. Junto com seu namorado, o também cineasta Marcio Picoli, ele pensou London como um libelo contra o confinamento e a rotulação de uma pessoa com deficiência, inclusive em relação ao seu diagnóstico.

O principal conflito de London, o personagem central, é com o laudo do seu exame, que ele se recusa a ler, muito menos a aceitar. O desejo de ir para Londres, a cidade do seu nome, é uma evasão que pode não passar de um sonho. Mas enquanto isso, o rapaz procura conforto na amizade com outros PCDs e no sexo. Trabalha numa casa de fetiches eróticos em Porto Alegre, onde sua prótese da perna parece ser um artefato valorizado. Bissexual, vai encontrar acolhimento junto a uma mulher mais velha que conhece por acaso.

A cortina que ele não consegue afixar na janela do seu quarto é uma metáfora de tudo o mais que ele não logra obter. Tem seus momentos de revolta contra o olhar dos outros, que o definem como “pessoa especial”. Queria ser apenas mais um na multidão – o contrário do que tantos procuram, afinal. Até de sua mãe ele ouve frases que ninguém gostaria de ouvir.

London oscila entre signos de dor e de hedonismo. Basta ver o paralelo sutil entre os ruídos do aparelho de ressonância magnética e as batidas da música eletrônica que toca no clube. Ou entre as luzes hospitalares e a féerie colorida da iluminação na casa onde London trabalha. A fotografia de Bruno Polidoro explora magistralmente os ambientes artificializados, lembrando a estética do chamado neon-realismo dos anos 1980 e do cinema de Wong Kar-Wai, assim como as imagens de uma Porto Alegre crua e pouco hospitaleira. Algumas tomadas são virtuosísticas, como a que acompanha a deserção de London do hospital.

O filme ganhou o Leão queer no Festival de Veneza e projeta a outro degrau de sucesso o trabalho de seus realizadores e colaboradores como a atriz PCD Jéssica Teixeira, que vive a melhor amiga de London. Victor Di Marco é ativo há pelo menos seis anos na criação artística com base em suas características pessoais e publicou um livro sobre capacitismo. Esse primeiro longa da turma é primoroso esteticamente e importante como grito de identidade.

Falta-lhe, porém, um desenvolvimento dramático mais abrangente. Tudo o que cerca o protagonista é apresentado superficialmente, funcionando mais como amparo ao argumento central, que é mínimo. O sexo não é suficiente para curar a solidão, nem o resultado de um exame pode determinar um destino. O resto se dilui na beleza das imagens e na intensidade do ator em se disponibilizar.

>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/london

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