Festival do Rio: “O Cinema Possível” e “Helena! Cinema!”

A história de Cavi Borges, do judô ao cinema, é bem conhecida pelos cinéfilos, sobretudo os cariocas, mas está espalhada em depoimentos e entrevistas que se pode garimpar na internet. O fato de alguém tê-los reunido num filme é, por si só, um ato louvável. Foi o que fez Luiz Carlos Lacerda, um dos veteranos que Cavi ajudou a trazer de volta à praia da direção.

Pena que O Cinema Possível não vá muito além da simples reunião de materiais dispersos. Cavi aparece em vários estágios de sua carreira, contando sua trajetória desde os tatames do judô à mítica locadora Cavídeo, aos eventos, festas, mostras e cineclubes. Dali à produção de filmes foi uma evolução natural, assim como a chegada à direção, à distribuição e à exibição. História de um empreendedor nato que se rege mais pelo coração do que pelo bolso. Um agregador e entusiasta das parcerias.

Lacerda abre espaço no filme para a íntegra do primeiro curta dirigido por Cavi, Sem Saída, pequeno thriller que se conclui com uma boa piada. Conduzido pela voz do homenageado, o fluxo de imagens percorre outras produções suas, como Cidade de Deus 10 Anos Depois e Salto no Vazio com seu famoso beijo de vários minutos.

A simpática modéstia do rapaz não o impede de reconhecer que “atualizou” veteranos como Luiz Rosemberg Filho, Sérgio Ricardo, Sylvio Lanna e o próprio Lacerda quanto às novas tecnologias de criação e disponibilização dos filmes. Cavi propõe o cinema possível com baixos orçamentos e equipes coletivizadas. Critica o excesso de burocracia nos editais e dá boas vindas à pirataria. “Eu mesmo pirateio meus filmes”.

O justo reconhecimento a esse herói da resistência não justifica, porém, o tempo de tela dedicado à campanha pela permanência do Estação Botafogo. Ali o filme sai do trilho. Por outro lado, causa estranheza a ausência de qualquer menção a Patricia Niedermeier, parceira de vida e de criação de Cavi, que assina com ele diversos filmes. Cochilo ou irrupção do patriarcado?

Helena!Cinema!

Patricia é a voz poética que festeja Helena Ignez no curta Helena! Cinema!, de Cavi Borges e Christian Caselli. Mais que homenagem, este é um filme-louvor à diva experimental do cinema brasileiro. Lá está Helena na flor da juventude semeando o Cinema Novo ou fertilizando o Marginal. Cá está Helena no esplendor da maturidade refletindo sobre o cinema político e aventureiro que passou a dirigir.

A montagem vibrante tem a cara de Caselli, assim como as intervenções caleidoscópicas sobre as imagens de Pátio, de Glauber Rocha. Muito e merecidamente se tem celebrado Helena Ignez pela riqueza e coerência de sua trajetória. Esse curta é mais uma reverência por parte de gente que se sente inspirada por ela.

>> Programação (os dois filmes passam nas mesmas sessões): https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/o-cinema-possivel    

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