2 X 50 anos de cinema na Bahia

(Texto de Maria do Socorro Carvalho* publicado na caixa de DVDs Bahia, 100 Anos de Cinema)

Filmagens de "Redenção", primeiro longa baiano

100 anos de cinema na Bahia.  Ou, à maneira de Godard, 2 x 50 anos de cinema na Bahia.  Os primeiros cinqüenta anos dos pioneiros – com Diomedes Gramacho e José Dias da Costa inaugurando a tomada de pequenas fitas, em 1910, e culminando com os filmes de Alexandre Robatto Filho, entre 1930 e 1960.  Os cinqüenta anos seguintes, que ainda são nossos contemporâneos, têm início com o Ciclo do Cinema Baiano (1959–1964), para logo testemunharem o experimentalismo dos anos 1970 e certo vazio da época posterior até a retomada da produção em meados da década de 1990, batizada “a novíssima onda baiana”.

Se os registros centenários estão perdidos para sempre no fundo da baía de Todos os Santos, onde foram jogados como prevenção contra os temidos incêndios do celuloide, parte da obra pioneira de Alexandre Robatto Filho, aquele que primeiro filmou de maneira sistemática na Bahia, encontra-se em processo de restauração na Cinemateca Brasileira.  Seus documentários curtos constroem um rico panorama de aspectos diversos da cultura baiana, como se pode ver em Vadiação, um olhar sobre a capoeira em 1954, portanto o filme mais antigo desta coletânea.

Essa produção documental será referência para os jovens cineastas ao iniciarem a realização de filmes, sobretudo de ficção, no fim da década de 1950.  É desse momento o primeiro longa-metragem baiano, filmado entre 1957 e 1958, Redenção, de Roberto Pires – um semipolicial melodramático, segundo o crítico Glauber Rocha. E os curtas-metragens Um dia na Rampa, documentário de Luís Paulino dos Santos sobre um dia de trabalho na então famosa rampa do Mercado Modelo, e o filme-poema Pátio, o ensaio cinematográfico que marca a estreia de Glauber Rocha na direção. Todos três exibidos pela primeira vez, em Salvador, em março de 1959. 

Além dos filmes fundadores, esse importante surto apresenta-se aqui com sua “trilogia da fome”: Bahia de Todos os Santos (Trigueirinho Neto, 1960), Barravento (Glauber Rocha, 1960-62) e A grande feira (Roberto Pires, 1961).  Embora com concepções distintas, eles se ligam pela discussão em torno da fome e suas formas de representação, revelando preocupações comuns dos realizadores e indicando propostas estéticas que anteciparão o cinema da fome e da violência que explodirá com o Cinema Novo ao longo dos anos 1960.  Frutos do “desenvolvimentismo” local, os filmes tratam da fome em meio ao mundo do abastecimento – o transporte, a produção e a distribuição de alimentos – a partir de personagens famintos que devem matar a fome da cidade. 

A “nova onda baiana”, na qual se destaca o cineasta Glauber Rocha, constituiu-se um marco dessa cinematografia hoje centenária.  É notável que em um lugar sem história de produção fílmica surja um movimento não apenas realizador de filmes, mas antes de crítica, com formação de técnicos, produtores, atores e diretores, que permanecerá como referência ou inspiração para a multiplicidade de temas, abordagens e formatos da produção que se seguiu.  Assim, da experiência “marginal” de Meteorango Kid – Herói intergalático (André Luiz Oliveira, 1969) ao balanço geracional de Eu me lembro (Edgard Navarro, 2005); ou do sertão de Sob o ditame de Rude Almajesto: sinais de chuva (Olney São Paulo, 1976) à crônica da cidade de Dez centavos (César Fernando Oliveira, 2008), esboça-se um complexo (embora necessariamente parcial) painel da memória audiovisual baiana para celebrar o primeiro século do cinema na Bahia.

* Maria do Socorro Carvalho é professora e pesquisadora do cinema brasileiro, autora dos livros A Nova Onda Baiana (Edufba, 2003) e Imagens de um Tempo em Movimento (Edufba, 1999). 

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