Uma história de amor e ódio

Republico abaixo o comentário que escrevi sobre o doc Crítico por ocasião do Festival do Rio de 2008.

O longa de estreia de Kleber Mendonça Filho tem uma virtude indiscutível: torna no mínimo palatável uma discussão geralmente aborrecida, que é a relação entre críticos de cinema, cineastas e indústria cultural. Kleber está no centro dessa arena. É cineasta talentoso (A Menina do Algodão, Vinil Verde, Eletrodoméstica, Noite de Sexta Manhã de Sábado, Recife Frio) e crítico conceituado, presença frequente em festivais como os do Rio, Cannes e Berlim. Desde 1998, em meio às entrevistas que costuma fazer para o Jornal do Commercio de Recife e o seu blog Cinemascópio, ele vinha contrabandeando uma ou duas perguntas sobre a crítica e filmando as respostas com uma câmera digital. O material ia sendo acumulado até que sua mulher, a montadora Emilie Lesclaux, o instigou a formatar o filme pretendido.

Em 75 minutos muito bem articulados e dinâmicos, diretores e críticos brasileiros e estrangeiros falam sobre um arco de aspectos que vai do efeito das críticas sobre o ego criador à conveniência de relações pessoais entre cineastas e críticos, passando por elogios, ressentimentos e, é claro, muitas meias-palavras. Afinal, os cineastas estavam sendo convidados por um crítico a falar do ofício dele (crítico). Muitos citam os benefícios da resenha (principalmente a negativa). Eduardo Coutinho, por exemplo, conta como uma observação da jornalista Silvana Arantes gerou uma mudança importante na versão final de Edifício Master. Alguns, como Gus Van Sant e Richard Linklater, minimizam sua reação diante de um texto desfavorável. Mas há também os que desdenham frontalmente a importância do texto crítico (Daniel Filho, por exemplo) ou mesmo a existência de vida inteligente no jornalismo brasileiro (Hector Babenco).

Essa é uma conversa repleta de mágoas e dissimulações. Tudo isso forma um subtexto às vezes enfatizado pelas vinhetas com imagens icônicas/irônicas que Kleber e Emilie pescaram no site Internet Archive. Solução barata e eficaz, semelhante à que Marcelo Masagão recorreu maciçamente no seu Nós que Aqui Estamos por Vós Esperamos.

Os critérios editoriais do diretor levaram a um curioso recorte de gerações. Se a crítica internacional é representada basicamente por veteranos da Positif, Télerama, Le Nouvel Observateur e Variety, a crítica brasileira, com uma solitária exceção, fala pelas vozes de críticos bem mais jovens. Seja na captação, seja na edição, para mim ficou implícito que Kleber escolheu os estrangeiros por critérios de reverência e os conterrâneos por afinidades etárias. Não vai aqui nenhum juízo de valor quanto a essa opção, mas apenas a constatação de um parti-pris, digamos, crítico.

>>> Crítico está sendo exibido dentro do marco da Sessão Vitrine diariamente até quinta-feira próxima, sempre às 20h30, no Cine Joia (Rio) e em seis outras capitais.

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