Memórias de cinema de uma cidade sem cinemas

Dentro da homenagem a Cabo Verde no Cineport, assistimos anteontem ao documentário Éden, sobre o cinema e a cinefilia de Mindelo. Esta cidade da Ilha de São Vicente já foi a capital da cinefilia do país e hoje simplesmente não tem salas de cinema comerciais. O meio cultural mindelense vem lutando pela reativação do cine Éden-Park, o último a permanecer em funcionamento e hoje em ruínas.

Quem nos apresenta e comenta Éden é o cineasta Joel Zito Araújo, em texto especial para o blog:

O filme Éden, do realizador português Daniel Blaufuks, resgata as memórias dos cinéfilos da cidade de Mindelo em torno da sala de cinema Éden-Park, que tem uma historia extraordinária. Ela funcionou ininterruptamente  por quase um século, desde os anos 10, início do século XX,  até 2004. É confirmadamente a mais longa vida de um cinema nos países de língua portuguesa.

Além das lembranças e saudades dos mindelenses, o filme, que tem um cinema como foco, se abre naturalmente para a história de uma cidade e de uma das mais importantes ilhas de um país que é um arquipélago de origem vulcânica formado por 10 ilhas, Cabo Verde. O seu isolamento insular teve como janela fundamental, para entrada do que acontecia no mundo, o cinema e os navios que passavam por um porto estratégico durante vários séculos na rota marítima entre a América do Sul e a Europa. Pelo porto e pela cidade passou, ao longo do século XX, a vanguarda artística brasileira, desde os grandes da Semana de Arte Moderna, a Gilberto Freyre e Jorge Amado, que dialogaram e influenciaram os artistas e intelectuais do país, especialmente um dos seus maiores nomes, Baltazar Lopes.

Pelo escurinho do cinema Éden-Park passaram as produções de Hollywood e também as chanchadas da Atlântida. Um dos cinéfilos entrevistados afirma ter visto Aviso aos Navegantes nada menos que 31 vezes, tal foi o encanto com os atores Grande Otelo e Oscarito, e com essas comédias ingênuas populares tanto aqui no Brasil quanto em Cabo Verde.

O documentário Éden, apesar de um roteiro que se perde algumas vezes e de um emprego pouco usual do Super-8 para refazer sem cuidados a cidade de Mindelo nos anos 50, encanta por sua capacidade de trazer relatos fundamentais para a história do cinema do país. Resgata inclusive fotos, cartazes e a repercussão das primeiras películas produzidas em Cabo Verde, A Força da Cobiça, O Guarda Vingador e o mítico O Segredo dum Coração Culpado“, além das peripécias desses pioneiros do cinema cabo-verdiano que ousaram realizar dois filmes de faroeste em uma ilha que somente possuía um cavalo. Não serei aqui um estraga-prazeres revelando a criatividade dos cabo-verdianos para solucionar um problema tão difícil como esse.

Joel Zito Araújo

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