O que tenho visto

10 EM COMPORTAMENTO
Com dois prêmios importantes em Berlim e as graças da crítica, HOJE EU QUERO VOLTAR SOZINHO é filme que tende a ser superestimado. Tem uma narrativa de simplicidade eficiente, um tom preciso de encenação, diálogos justos e um ótimo trabalho com o elenco. Não usa badulaques estéticos nem truques de roteiro. Tudo isso contribui para a boa impressão de um filme honesto e delicado. Mas é preciso reconhecer que a historinha desses adolescentes, máquinas desejantes em rota de colisão, não deixa de apelar para todos os estereótipos do “filme de colégio”: o afeto incompreendido, a descoberta amorosa, o bullying, a periguete, a festinha e o acampamento onde a trama dá seus saltos mais arriscados. Além disso, em que pese a ótima fotografia, não é muito o que se passa no plano visual, ficando quase toda a ação circunscrita às falas. E não venham me dizer que a cegueira de Leo justificaria essa opção. Por fim, acho que Daniel Ribeiro teve tamanha intenção de “normalizar” as relações entre os personagens que tudo ficou um pouco morno. Os conflitos familiares, escolares e afetivos são amenizados em busca de um bom comportamento geral, quase uma idealização do inferno adolescente.

BÍBLIA VEGETARIANA
Não se pode negar que NOÉ é um filme corajoso. Fazer um épico bíblico falar a linguagem de “O Senhor dos Anéis” e colocar monstrengos de pedra no Antigo Testamento requer certa audácia temerária. É grande o risco de desagradar tanto aos jovens fãs de aventura quanto aos velhos ligados em religião. O filme é duro, escuro e claustrofóbico. Toma o maniqueísmo fundador da Bíblia (Caim e Abel) e desenvolve-o no que seria a primeira grande catástrofe da Humanidade. Noé é o homem justo (e vegetariano) que se opõe aos que seguem as leis do instinto (carnívoros), mas tem sua noção de virtude e senso de dever colocados à prova no seio da própria família. Esta é a senha para uma parábola sobre compromisso e compaixão. Pela ótica de Darren Aronofsky e seu misticismo cafona, tudo se resolve em cenas melodramáticas, dilúvios de lágrimas e céus coloridos sublinhados por música solene. Fiquei particularmente interessado em saber quem costurava as roupinhas justas sob medida e fazia as sobrancelhas das moças naquele tempo. Mas um mistério ainda maior é o que nos reserva o desfecho, que aliás está na Bíblia: como terá a raça humana saído daquele imbroglio se os únicos sobreviventes eram filhos e sobrinhos de uma mesma família? Seremos todos filhos de um incesto? Será por isso que o Novo Testamento prega a fraternidade entre os homens?

DECALQUE DO REAL
A realidade é pouco para justificar um filme. UM DIA NA VIDA DE UM CATADOR DE FERRO VELHO usa os meios mais dignos para reencenar o calvário real de uma família pobre da Bósnia em busca de atendimento médico – vale dizer, sobrevivência. Os atores são a própria família, o local é o mesmo, tudo se passa diante da câmera de maneira muito simples e direta. A espontaneidade das duas crianças, que parecem alheias ao processo da reconstituição, acrescentam mais uma camada de veracidade. Eu me senti como se estivesse diante de um documentário de observação que chegou atrasado. O filme de Danis Tanovic depende unicamente desse vínculo com o real para se sustentar na tela. Achei bastante primário e cru no mau sentido. Uma das poucas intervenções dramatúrgicas é a ênfase em mostrar as usinas termoelétricas de Tuzla nos trajetos entre a casa e o hospital, como a sublinhar a distância entre o poder industrial e a precariedade da vida nas vilas distantes, onde a luz é cortada, a TV pega mal e o inverno parece mais rigoroso. A insensibilidade dos médicos contrasta com a solidariedade dos parentes e vizinhos em mais um paralelo proselitista. Da premiação em Berlim, entendo a de melhor ator para o marido como um aceno simpático a um amador que se sai muito bem, e o Prêmio Ecumênico pela ótica social. Já o Grande Pêmio do Júri me parece mais uma concessão política do que um reconhecimento artístico.

OUTRA BLUE JASMINE
JASMINE, o filme vencedor da competição internacional do É Tudo Verdade, me agradou mais como proposta do que como resultado. A ideia de contar o romance entre o diretor-animador francês e uma joverm iraniana em meio às turbulências da Revolução Islâmica, usando quase somente animação em massinha, chama atenção pelo choque entre a gravidade das situações e o caráter lúdico do material empregado. No início, as ideias de Alain Ughetto comovem e surpreendem. A plasticina permite uma enorme expressividade no ato de construir, alterar fisicamente e destruir as figuras. O cenário de uma Teerã composta de tijolos e perfis de cerâmica também causa um impacto inicial, assim como o tratamento sonoro bastante sugestivo. Mas depois de certo tempo, esses recursos se mostram limitados para um longa de 70 minutos. O homenzinho amarelo e a moça azul (outra Blue Jasmine?) tornam-se repetitivos e um pouco enfadonhos, sem acrescentar grande coisa à história, já bem conhecida, da tomada do país pelos aiatolás. Os ecos do caso de amor e das desilusões políticas chegam aos dias de Ahmadinejad embalados pela melancolia e pela sensação de fracasso. Um filme que, apesar de momentos muito bonitos, não chegou a me entusiasmar.

BARDOT, JE T’AIME
O melhor filme que vi no É Tudo Verdade este ano (não vi muitos) foi BARDOT, LA MÉPRISE BRIGITTE BARDOT, A INCOMPREENDIDA (tradução correta: a desprezada). Como Maximilian Schell em “Marlene”, David Teboul foi impedido de filmar BB, mas fez dessa ausência um recurso poético. Filma sua casa, seus pertences, e escolhe um tesouro de cenas de filmes, bastidores e filmagens domésticas para contar a história da atriz frágil que nunca se casou direito com o cinema. O filme é um poema de amor a Brigitte, em que o diretor usa trechos de suas memórias (ditos por Bulle Ogier) e “conversa” com ela de maneira bem pessoal, espelhando um pouco sua vida na dela. O resultado é lindo, delicado e comovente. Uma biografia narrada com noção de evocação poética e sutileza suficiente para não parecer uma biografia. Os aspectos trágicos da vida de BB, suas tantas histórias de amor, a misantropia que a levou ao degredo atual, quase tudo está ali, em tom respeitoso e sincero. Tributo de um fã que encontrou a justa homenagem.

3 comentários sobre “O que tenho visto

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. FILMES COMEÇARAM A SE TORNAR IRRELEVANTES?
    Não é um comentário. É uma pergunta, por sinal muito preocupada (eu diria, mesmo, angustiada), e com mais uma funda desconfiança de que eles talvez sejam, JÁ, irrelevantes — há pelo menos uns dez anos. [Nem com “Melancolia” e outros subprodutos da evidente superestimação de filmes & cineastas etc, dá para evitar a sensação de irrelevância do que estamos assistindo, às vezes, ainda “de joelhos”… E isso é um erro.

  3. Conversei com o diretor David Teboul, de BB, sobre o desprezo que a mãe gerou pela filha apenas por conta da quebra de um vaso chinês, no que ele atualizou o sentimento gênero concorrencial. Lembramos o fato de também ser uma bela mulher e ter tido, no passado, o desejo de ser modelo (que projeta na filha). Sobre a “pegada psi”, sua revelação de que irá fazer um filme sobre o Freud, só ratifica o interesse dos franceses pelo viés psicanalítico. Um filme que exalta o papel da diva que ela sempre soube representar: em particular e em público.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s