Docs brasileiros em cartaz

Passada a primavera do novo documentário brasileiro, entre 2004 e 2009, a presença do cinema do real nas telas comerciais sofreu um certo esmorecimento. Tornou-se intermitente e de baixa repercussão. Por isso é digna de nota a presença, esta semana, de quatro docs brasileiros em salas do Rio. Além do excelente Jonas e o Circo sem Lona e do curioso Waiting for B., há também Por um Punhado de Dólares – Os Novos Emigrados Pedro Osmar – Prá Liberdade que se Conquistaque comento abaixo. Vale citar também a pré-estreia com debate, quarta às 20 horas no Joia, de Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, de Henrique Dantas sobre Olney São Paulo.  

Um brasileiro consertando equipamentos elétricos em Tóquio, um gambiano lavando pratos em Munique e um mexicano ensinando boxe no Texas – estes são os personagens de POR UM PUNHADO DE DÓLARES – OS NOVOS EMIGRADOS. A globalização é vista por um ângulo original no documentário de Leonardo Dourado. Afinal, as pequenas remessas de imigrantes a seus países de origem, somadas, representam a segunda maior fonte de renda dessas nações depois dos investimentos estrangeiros diretos. Uma economia que não se vê, mas que, segundo o filme, movimentou em escala global mais de 400 bilhões de dólares em 2012.

Eu conhecia esse projeto desde 2008, quando seus personagens incluíam uma filipina vivendo no Canadá. Embora seu “gancho” seja a economia, a intenção sempre foi de buscar o pano de fundo dessa “nova emigração”: os laços humanos que se mantêm ou se perdem através do planeta, as diferenças culturais entre origem e destino, as contradições de um sistema (americano) que nega documentos mas cobra impostos dos imigrantes não completamente legalizados.

Se o ângulo é original, o mesmo não se pode dizer do tratamento dado ao assunto. Na maior parte do tempo, Por um Punhado de Dólares se assemelha a uma reportagem de televisão, valendo-se mais de depoimentos convencionais e cenas de ilustração do cotidiano do que de uma realidade descortinada pela câmera. Esta se limita a algumas cenas de recebimento de presentes e víveres por familiares distantes. A história de Ibrahim Suware, que precisa ajudar no sustento de sua família em Gâmbia e também dos filhos nascidos na Alemanha, é a que mais rende do ponto de vista dramático.   



O videoselfie é uma figura usada com frequência no documentário PEDRO OSMAR – PRÁ LIBERDADE QUE SE CONQUISTA. O músico, poeta e artista visual paraibano Pedro Osmar Gomes Coutinho grava seu próprio rosto em contraplongê, a barba engalfinhada em primeiro plano. De certa forma, isso sintetiza a intenção do filme de Eduardo Consonni e Rodrigo T. Marques de mostrar o trabalho do multiartista através de suas próprias palavras e – mais que isso – ao seu jeito pessoal e desestabilizador.

Pedro Osmar tem um currículo memorável na vanguarda artística da Paraíba. Fundou o seminal projeto Jaguaribe Carne, que na década de 1970 antecipou muitas novidades do pop nordestino que viriam depois. Sempre fez arte política e experimental em batalhas inglórias para ganhar a simpatia popular quando seu destino era ficar mesmo restrito a uma elite.

A distância entre intenções e resultados políticos, expressa numa fala do próprio Pedro Osmar, parece reverberar na estrutura do documentário. Relacionar os poemas e as ideias do personagem com um vasto material de arquivo de lutas e festas populares, oriundo do Acervo Cinema Paraibano – Memória e Preservação, é uma tarefa complicada na maior parte do tempo. Talvez por isso, os sentidos se completem melhor na segunda metade do filme, quando o foco se concentra nas experimentações sonoras influenciadas por Hermeto Pascoal, Airto Moreira, Naná Vasconcelos e Egberto Gismonti.

A decisão de deixar que o perfil se construísse somente com as falas casuais do artista, sua obra e os arquivos não deixa de ser louvável como proposta de documentário sobre um criador tão irrequieto. Mas, nesse caso, tive a impressão de que faltou liga para que a personalidade de Pedro Osmar pudesse aflorar com a definição merecida.

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