Conversas na boleia

FABIANA – Festival de Brasília

Se existe um exemplo de que basta um bom personagem para se fazer um documentário, este é FABIANA, primeiro filme da jovem goiana Brunna Laboissière. Com uma câmera na mão e disponibilidade na cabeça, ela acompanhou a caminhoneira Fabiana em sua última viagem depois de 30 anos na estrada. Mas Fabiana não é uma caminhoneira qualquer.

Mulher trans de vida nômade, ela traduz no próprio corpo o não binarismo de gênero. Embora se considere do sexo feminino (sem ter feito a transição genital), ela tem um longo currículo de amores com outras mulheres, o que lhe gerou um filho. Em típica conversa com caminhoneiros homens, ela se diz uma igual: “Meu negócio é perereca”. No entanto, eis que, com o decorrer da viagem, entra em cena sua atual namorada Priscila, também transexual. O nível de indefinição se acentua, os personagens fogem a qualquer padrão de identidade sexual assim como um sabonete molhado escapa de nossas mãos.

Independente disso, Fabiana tem outros atributos como personagem. Brunna conseguiu captar sua admiração quase infantil por aviões e fogos de artifício, a relação ambígua (entre amizade e flerte) com uma senhora de Fortaleza, as muitas histórias de amor e ciúme, a preocupação com o filho distante. Tudo isso é objeto das conversas na boleia e nas paradas do caminho, com Brunna, Priscila e ao telefone ou no rádio do caminhão.

A gente sai do filme com a sensação de que alguns longos minutos de inação e silêncio poderiam dar lugar a um conhecimento maior da história de Fabiana. Por que lhe faltam dois dedos na mão direita? Como resolve na prática sua conturbada vida afetiva? A diretora privilegiou uma discrição que é respeitosa, mas talvez pudesse avançar um pouco mais na inquirição da personagem.

De qualquer forma, FABIANA é um road-doc original e de uma simpatia radiante. Uma de suas virtudes laterais é testemunhar a naturalidade, a tolerância e mesmo a afeição com que pessoas comuns do interior tratam figuras tão peculiares quanto essa caminhoneira. Isso desfaz certas ideias preconcebidas quanto à província.

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