Mentiras fraternas

DIGA QUEM EU SOU na Netflix

Em 1982, Alex Lewis sofreu um traumatismo craniano em acidente de moto e perdeu completamente a memória. Tinha 18 anos e um irmão gêmeo, Markus, que se responsabilizou por lhe dizer quem era e como tinha sido seu passado até ali. Criou-se entre os dois uma relação de confiança absoluta, à margem dos pais, que se mantinham alienados do problema e praticamente excluíam os filhos do convívio com eles. Aos poucos, porém, entre achados nos porões da casa e informações que “não batiam”, Alex começou a perceber que as coisas não tinham sido exatamente como o irmão descrevia. Um terrível segredo de família havia sido omitido. Para Markus, tratava-se de proteger o irmão. Para Alex, o fornecimento de memórias falsas sobre uma infância feliz era nada menos que uma traição.

DIGA QUEM EU SOU (Tell Me Who I Am) coloca Alex e Markus diante da câmera para contarem essa incrível história. No primeiro ato, Alex narra do seu ponto de vista como foi preencher o vazio e estruturar uma identidade a partir do que o irmão lhe contava. No segundo ato, Markus relata suas mentiras piedosas, que serviam também para aliviar em si mesmo um trauma sobre abuso sexual na infância. No terceiro ato, os dois se confrontam para uma revelação ainda mais dolorosa, que Markus tinha subtraído até mesmo do livro que escreveram juntos em 2013, também intitulado Tell Me Who I Am.

A essa altura, o espectador está fisgado por uma curiosidade um pouco mórbida, instigada pela maneira como o filme se constrói nesse sentido. Tanta eficácia narrativa gera mesmo uma inquietação. A começar pela absoluta fluência das falas dos gêmeos. Como dois excelentes atores, parecem dizer um texto pronto e acabado nos mínimos detalhes. Até quando dialogam, não se atropelam nem hesitam. Naturalmente, depois de muito expor o caso para o livro e jornais, já tinham uma explanação lapidada.

Quando Markus decide contar a Alex os pormenores mais chocantes, prefere fazê-lo através de uma gravação, que em seguida é apresentada ao irmão. O filme troca, assim, o papel de registro pelo de ferramenta da própria revelação. É um movimento habilidoso, fruto de uma longa aproximação do diretor Ed Perkins com os personagens. No entanto, não deixa de sugerir uma decisão fabricada para surtir um efeito cinematográfico suplementar.

O estilo Errol Morris de ilustrar os depoimentos com imagens ficcionais colabora para borrar um pouco as fronteiras entre narração e representação. A mansão aristocrática dos Lewis é filmada como cenário de um filme de terror, tendo inclusive cenários elaborados pela direção de arte para detalhar os interiores.

O maior estranhamento, porém, se refere ao que é deixado de fora para concentrar o foco na relação entre os gêmeos. Custa crer que Alex ouvisse apenas o irmão gêmeo a respeito de seu passado, sem cotejar informações com outras fontes. É por leituras paralelas que ficamos sabendo que eles tinham dois irmãos do segundo casamento da mãe, que não são sequer citados mas tiveram participação importante na história. Tampouco se menciona que a mãe teve um surto psicótico resultante em compulsão sexual e que o pai a que Alex e Markus se referem na verdade era seu padrasto. O pai biológico morrera pouco depois do nascimento deles.

Descontada qualquer suspeição sobre as escolhas da direção e dos personagens, DIGA QUEM EU SOU levanta ideias intrigantes sobre formação da memória, construção da identidade e responsabilidade familiar. No fim das contas, é mais que tudo uma bela história de amor fraternal.

7 comentários sobre “Mentiras fraternas

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  4. Carlos, ótimo texto. Como parto do princípio que qualquer filme, mesmo um documentário, é um recorte e uma construção, não vejo problema nenhum nas omissões e sinceramente, não senti falta delas. A própria maneira como o filme é desenvolvido, com elementos de iluminação e o próprio cenário às claras durante o depoimento dos irmãos não pretende enganar o espectador mais atento. É uma reconstrução, Flaherty já fazia isso, mas tão bem dirigida que acreditamos que estamos vendo os dois conversando pela primeira vez. Acho um exercício cinematográfico brilhante e a serviço de questões das mais relevantes que você muito bem levanta. É um filme poderoso, que nos envolve e nos faz pensar com poucos elementos e pura dramaturgia e direção de atores “não-atores”. Gostei também das informações que você fornece mas elas em nenhum momento me parecem afetar o resultado brilhante desse filme. Um abraço

    • Caro Roberto, concordo que as omissões não prejudicam em nada a qualidade do filme no que diz respeito à narratividade e às questões em pauta. Mas, a mim, a quase excessiva lapidação de todas as cenas me deixou tão inquieto a ponto de me fazer pesquisar o que mais havia por trás daquela história. Não acho correto, por exemplo, fazer-nos pensar que o padrasto era pai deles (o que nos leva a fazer um juízo equivocado da paternidade), nem, entre outras coisas, omitir que a foto das cabeças cortadas foi encontrada, na verdade, por um irmão mais novo que também sofria abusos sexuais semelhantes. Enfim, é apenas um ruído na relação entre o filme e os fatos, mas, como você ressalta, não desabona o filme enquanto exposição do plot central. Abração.

      • Carlos, respeito a sua opinião, mas do ponto de vista da construção das ideias e das questões que o filme levanta, para mim não há diferença se o encontro da foto se deu com um irmão mais novo. Isso claro, partindo da ideia que aqui estamos na fronteira entre ficção e fato ( o que o filme deixa muito claro, pela linguagem que utiliza). Para mim, os fatos que não alteram essencialmente a verdade da história é que podem se tornar ruído, pois desnecessários. O trabalho de chegar à essência de uma história e contá-la de um ponto de vista que é compartilhado pelos principais personagens envolvidos, é dramaturgia. Eu sei que o uso da ficção em documentários pode ser problemática, mas nesse caso não há nada que não veja como positivo para o filme. Um abraço

      • Acrescento ainda que o título que você dá a seu texto é interessante pois carrega uma ambiguidade. Como você mesmo diz, a título de fazer o bem, Markus distorce a verdade do que ocorreu, até em função de que ele mesmo não a suportava. Isso é um conflito de uma grande riqueza e nada maniqueísta. Tal conflito revela que a título de fazer o bem, podemos estar fazendo o mal, até mesmo para inconscientemente nos preservarmos. Então, a fraternidade também aí está questionada. Um abraço

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