É Tudo Verdade: “Não Nasci para Deixar Meus Olhos Perderem Tempo” e “Eu Caminho”

O fotógrafo Orlando Brito conta as histórias de seus cliques e o documentarista Jørgen Leth enfrenta a decadência física   

Nos bastidores das fotos

Há mais de 50 anos Orlando Brito fotografa o poder em Brasília, celebridades e brasileiros comuns pelo país afora. Junto com Evandro Teixeira, forma o duo de ouro do fotojornalismo no país. Quem o ouve contar a história por trás de cada uma de suas fotos ganha uma espécie de ampliação – não da foto em si, mas do seu sentido e contexto. Brito é um exímio contador de casos, daqueles com quem a gente gostaria de passar uma tarde inteira numa varanda, bebendo água de coco. Sua memória é prodigiosa para detalhes e conversas, como se vê nesse Não Nasci para Deixar Meus Olhos Perderem Tempo.

O documentário de Claudio Moraes não parece preocupado em criar uma moldura narrativa mais elaborada. Limita-se a justapor relatos e fotos, mesclando os vários universos clicados pelo mestre. Da noite do AI-5 ao governo Dilma (que eu me lembre, uma única foto posterior ao golpe de 2016 foi incluída), de Brasília aos cafundós do Nordeste, as histórias se sucedem quase aleatoriamente. As fotos de brasileiros e brasileiras célebres, sempre sentadxs e adornadxs com um tecido vermelho, suscitam lembranças deliciosas dos encontros, como o cantinho atrás de um altar onde dormia Dom Hélder Câmara ou Mário Quintana dizendo que o melhor dia da sua vida foi aquele em que nasceu.

Sempre com sua profissão carregada no pescoço (a frase é dele), Orlando Brito busca “a boniteza dentro da notícia”. Esse filme nos dá a chance de conhecer minimamente o homem por trás de tantas fotos clássicas. Poderia ter sido mais penetrante e melhor estruturado, mas proporciona ao menos uma “conversa” agradável.


O ocaso do velho sátiro

“Existe vida depois da morte?” Com essa indagação o veterano Jørgen Leth encerra seu ensaio fílmico mais recente, Eu Caminho (I Walk). A pergunta ecoa para além do filme, pois soa como um derradeira questão deixada pelo célebre documentarista e poeta dinamarquês. Ele está bem vivo e ainda caminhando, instalado na República Dominicana, mas I Walk tem um quê de testamento. Obsessivamente filmado por seu filho, o também cineasta Asger Leth, Jørgen reflete sobre a sua própria decadência física aos 83 anos.

O terremoto de 2010 no Haiti atingiu em cheio a casa onde ele morava havia quase 20 anos. Sobreviveu por pouco e atribui a esse trauma a sua rápida deterioração corporal. Para o homem que cruzou os quatro cantos do mundo e era apaixonado por ciclismo, a dificuldade em andar ganha estatura de tragédia. Jørgen lamenta a barriga saliente, as pernas vacilantes, a audição comprometida, o esforço que lhe custa calçar uma meia e um tênis. O velho sátiro que já filmou mulheres nuas em diversos países, satirizou a vaidade humana em The Perfect Human e submeteu-se a Lars Von Trier em As Cinco Obstruções agora simplesmente luta para manter-se de pé.

I Walk é um rosário de ruminações do cineasta intercaladas com versos minimalistas do poeta. As imagens oscilam vertiginosamente entre tempos e lugares, sem nenhuma ordem clara. “Eu preciso voltar, encontrar coerência, encontrar a ordem”, afirma numa das primeiras cenas. É o que ele vai buscar, afinal, em mais uma viagem, dessa vez ao Laos, em busca de “emoldurar” a selva. Sua árdua caminhada num pequeno trecho em aclive perto de Luang Prabang o leva ao local onde um capricho seu está sendo produzido, à moda de Fitzcarraldo.

Leth já foi acusado de exploração colonialista por suas vivências no Haiti e seu filme Erotic Man. Agora entra na mira mais uma vez com seu “projeto selvagem”, um tanto inócuo como obra artística. O próprio documentário, com toda a franqueza e auto-exposição, soa como um objeto narcísico ao contrário.

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