A saga de um líder gavião

É TUDO VERDADE: Adeus, Capitão.

Os longas-metragens de Vincent Carelli têm a estrutura de sagas. Em Corumbiara (2009), os massacres sofridos por povos indígenas desde o regime militar. Em Martírio (2016), as violências cometidas por latifundiários, pecuaristas e fazendeiros contra os guarani-kaiowá. Adeus, Capitão. (o título leva um ponto final como a indicar o fim de uma história) é o primeiro a focalizar um personagem central e narrar, através dele, a luta pela preservação de uma cultura originária.

No caso, a cultura do povo Gavião, que habita as terras do Pará. Krohokrenhum, falecido em 2016, foi uma liderança que batalhou pela unificação de várias tribos gavião e pela permanência da língua timbira e dos rituais de sua nação. Foi um líder carismático e severo, hábil na negociação com os kupen (não índios) e vaidoso de seus conhecimentos tradicionais. Reconhecia que fora muito brigão na juventude, mas, depois de velho, queria morrer “quieto”.

Carelli manteve com ele uma amizade e uma parceria desde os anos 1970 até literalmente o momento de sua morte, assistida pelo cineasta num hospital de Belém. Krohokrenhum frequentemente convocava Carelli para filmar – “tudo  direitinho” – rituais e momentos importantes de sua atuação no Pará. É quando comentava sua tristeza em ver os jovens abandonando os costumes indígenas em troca de futebol, igrejas evangélicas e vida de kupen.

Nessa trajetória de mais de 40 anos, Carelli e seus colaboradores recolheram testemunhos sobre o processo de desintegração dos gavião, seja por guerras entre suas três tribos, seja pelo contato com os não indígenas. Daí vieram doenças, transferência de crianças para cidades, trabalho escravo na Frente Castanheira (levados pelo Serviço de Proteção ao Índio), avanço dos projetos de desenvolvimento sobre seus territórios, segmentação das aldeias.

Uma certa ambivalência transparece na atitude dos gavião perante os kupen: por um lado, a satisfação com certos confortos da nossa civilização; por outro, a consciência da submissão e da humilhação.

O Capitão (patente conferida pelo SPI a Krohokrenhum na intenção de aproximar pela via militar) foi um pêndulo nessa convivência. Reconhecido como líder incontestável, negociou uma autonomia provisória dos gavião na produção de castanha e indenizações razoáveis pelo uso de suas terras. Ao mesmo tempo, foi o grande agente de recuperação de traços culturais pelas gerações mais jovens.

Não é fácil acompanhar a quantidade de acontecimentos e personagens descerrados por Carelli em sua coleta de fotos, filmes e áudios. A linha temporal às vezes se torna confusa e os relatos, repetitivos. A montagem de Tita, que assina também a direção, trocou a síntese por uma certa indulgência quanto à extensão do material reunido. Ainda assim, a bonita relação de Carelli com Krohokrenhum reaquece constantemente o nosso interesse, para além da saga impressionante dos gavião.

Exibições:       
05/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Augusta (SP)
05/04 – 20h: Espaço Itaú de Cinema Botafogo (RJ)
05/04 – 21h: online – É Tudo Verdade Play – Limite de 1800 Visionamentos
06/04 – 12h: online – É Tudo Verdade Play – Limite de 200 Visionamentos
06/04 – 15h: Debate com equipe do filme no canal do É Tudo Verdade no Youtube

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