A piscina pode esperar

A FELICIDADE DAS COISAS no streaming         

Houve um tempo em que grande parte dos filmes brasileiros pecava por um artificialismo teatralizado (no mau sentido), em que os personagens não soavam como pessoas de carne e osso, mas como títeres despejando diálogos em linguagem nada oral. Nessa época, que se estendeu até os anos 1980, o som das salas de cinema tampouco era favorável a uma comunicação fluente entre personagens e espectadores. A ausência de legendas afastava o público do chamado filme nacional.

Isso passou, felizmente, com o aprimoramento tanto das gravações de som quanto da reprodução nas salas. Passou também com a conquista de uma maior perícia na escrita dos diálogos, que aproximaram as figuras na tela das pessoas reais fora dela. O cinema brasileiro ficou mais naturalista, com gente crível, falando como se fala nas ruas e nas casas.

Faço esse longo introito para chegar ao estilo de encenação visto em A Felicidade das Coisas. Temos ali um padrão de fidelidade ao cotidiano que vimos encontrando em filmes tão diferentes quanto Cidade de Deus, O Som ao Redor – com que identifico certo parentesco – ou Temporada. A busca de uma voz legítima (como desenvolvi nesse artigo de 2003) leva à extrema verossimilhança com que se expressam e se comportam os personagens de Thays Fujinaga nesse filme.

Eles são uma família de classe média baixa em férias no litoral paulista. Paula (Patríca Saravy), sua mãe (Magali Biff) e seus dois filhos (Messias Barros Góis e Lavínia Castelari) frequentam a praia e um pequeno clube/parque de diversões próximo, aguardando que uma piscina seja finalmente instalada na sua modesta casa de veraneio. Paula está grávida de mais um filho, afastada do marido e sem finanças suficientes para completar o pagamento da obra. O buraco aberto e a cuba da piscina à espera na vertical parecem metáforas do estado dessa mulher às voltas com as obrigações de mãe e o abandono como esposa.

A obra a meio caminho também funciona como uma metonímia do filme. Nada de muito importante acontece na vida daquelas pessoas enquanto convivemos com elas nesses poucos dias de um triste verão. A menina (que ótima pequena atriz!) faz as vezes da consciência da casa, como quando enterra os cigarros da mãe no buraco da piscina. O garoto investe sua masculinidade nascente numa pequena aventura com meninos locais. A avó cata latinhas com um objetivo prosaico. As conversas são irrelevantes – o que não deixa de cativar pela singeleza.

O excesso de naturalismo, muito típico dos filmes da produtora mineira Filmes de Plástico, opera aqui de maneira ambivalente. Se, por um lado, tudo soa tão veraz como representação daquela família em exaustivas férias, por outro, falta conflito ou alteração que satisfaça as expectativas criadas pelo argumento. Da mesma maneira, a informalidade buscada na atuação do elenco, aliada a possíveis deficiências na captação do som, faz com que muitas falas não sejam compreendidas, o que dificulta a composição do perfil de personagens que já são apenas rascunhados.

Chegamos, assim, à antítese do velho problema. Não mais o artificialismo, mas o naturalismo exacerbado é que impede um envolvimento mais eficaz do público. É preciso, portanto, relevar a dramaturgia rarefeita e os diálogos prejudicados de A Felicidade das Coisas. Assim será possível acessar a beleza sutil dessa crônica sobre humildes sonhos de consumo e microepisódios de vidas mais que comuns.

>> A Felicidade das Coisas está nas plataformas Claro Tv, Vivo e Oi Play.  

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