Amelia é que era artista de verdade

AMELIA TOLEDO: LEMBRAR DE NÃO ESQUECER

(crítica-ficção)

Abracei as pedras, vi seus reflexos se distorcerem nas placas metálicas, espalhei os líquidos coloridos dentro dos discos táteis, caminhei descalço pelo chão coberto de areia na exposição do Mube, passeei entre os painéis e sobre o chão criados por ela para a estação de metrô Cardeal Arcoverde… Tudo isso vendo o documentário Amélia Toledo: Lembrar de Não Esquecer.

Embora tenha tido um primeiro contato com a obra de Amelia Toledo (1926-2017) ainda enquanto trabalhava no CCBB-RJ, na sua exposição individual Horizontes, em 1996, só agora pude ter uma dimensão mais completa do seu trabalho tão ligado a uma poética dos minerais e ao mesmo tempo tão duro e tão lúdico. Através do filme de Helio Goldsztejn, quase pude dançar com ela enquanto ela girava em torno de suas telas, distribuindo pinceladas intuitivas regidas pela música ou por algum impulso que lhe vinha do baixo ventre.

Seu filho, sua filha e sua neta se juntaram a curadores, galeristas, parceiros, profissionais de museus e até um ajudante particular para me contar como ela trabalhava, como lidava com aqueles materiais pesados e difíceis, e de sua satisfação com a arte pública que, de certa forma, devolvia as obras à Natureza de onde tinham saído. Jorge Bodanzky me revelou como ela inspirava seus alunos na Universidade de Brasília.

Familiares e amigos me explicaram detalhes variados sobre sua vida, da estada no Portugal salazarista à inquietação pessoal que inviabilizou seu casamento, passando pelos paramentos que ela desenhou para padres de Brasília e pelos pratos que confeccionava com zelo estético antes que fossem destruídos pelos comensais. Fiquei com a impressão de que Amelia gostava mesmo era de criar obras que fossem experienciadas com o corpo – tocadas, pisadas, comprimidas, vestidas. Uma bruxa, quem sabe, extraindo das matérias alguma energia curativa. “Ela tinha uma brincadeira com o infinito”, me disse Mo Toledo, filho e gestor da obra de Amelia.

Digo tudo isso em primeira pessoa porque Amélia Toledo: Lembrar de Não Esquecer nos fala de perto, como se fosse para cada um de nós em particular. Daí que eu convivi com ela nas cenas gravadas em vida pela SescTV ou por Rubens Crispim Jr. no documentário que ele deixou inacabado quando morreu vítima de um acidente aéreo em setembro do ano passado. Lá estava Amelia manipulando e comentando peças suas com a alegria de uma adolescente octogenária.

Não é fácil filmar as obras de Amelia, que dependem muito da luz e do movimento para surtir seu máximo efeito. As imagens fazem o possível para possibilitar essa visão, mas o filme é bem sucedido principalmente ao expor a diversidade e o inusitado do trabalho. Sorte nossa de ter quem continue zelando pelo acervo, incluindo o último quadro que ela pintou poucas horas antes de falecer. A sua cuidadora foi quem me contou esse instante derradeiro e comovente. E vai contar também para todos os que virem o filme.

>> Amélia Toledo: Lembrar de Não Esquecer está nos cinemas.     

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