Desde 2019 ele dormia escondido atrás de outros livros na minha estante funda. Já estava com manchinhas amarelas nas páginas, mas nada que empanasse o brilho dos contos de Braulio Tavares em Fanfic.
Na introdução ele explica o conceito de fanfic, abreviação de fan fiction: ficção inspirada em escritores que o autor admira. Braulio é um escritor de múltiplas habilidades, que incluem a ficção científica. Fanfic reúne 22 contos repletos de ideias fascinantes nesse campo.
Uma obra-prima do gênero é O Molusco e o Transatlântico, em que um astronauta brasileiro metido numa missão multinacional se vê hospedado por seres alienígenas.
Frankenstadt descreve uma cidade onde a ideia de homens compostos de matéria própria ficou distante no passado, e todos os habitantes são feitos de pedaços de outros seres.
Um polvo assassino, a primeira viagem de um extraterrestre à Terra, a caminhada de um homem sob o efeito de uma droga quântica pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro, a exposição de uma certa estética literária eliminacionista segundo a qual se parte de uma página negra para eliminar tudo o que não seja o texto… Volta e meia, Braulio nos arrasta para uma lógica completamente entrópica, e é alucinante.
A alternância do “real” com o onírico é uma constante nos contos, muitos dos quais começam ou recomeçam com algo como “Quando acordei…”
Quem conhece o blog Mundo Fantasmo, mantido por Braulio desde 2003, sabe bem a pluralidade dos interesses do moço, da literatura de cordel à sci-fi, passando por todos os quadrantes do jornalismo cultural. Sabe também que Braulio escreve com clareza, inteligência e fino humor. Essas qualidades também estão presentes em sua ficção.
Num momento em que o cinema brasileiro viaja tanto pelas veredas da ficção científica, os roteiristas deviam visitar Fanfic e as incríveis possibilidades de ambientação, personagens e situações que Braulio descreve com tanta verve e uma irretocável qualidade literária.



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Vale a busca, Kátia
Eu sempre pensei em um dia ter um filme meu comentado por Vosselência… Como não faço filmes, ganhei de graça esta resenha literária, que vou emoldurar. Melhor: vou compartilhar com meus editores Eduardo Lacerda e Luiz Bras, que apostaram no livro. Que o céu te ilumine!
Ora ora, meu caro. Teu livro me proporcionou horas deliciosas. Só quis mesmo compartilhar esse prazer.