69 anos de solidão

Saiu há pouco pela editora 7 Letras um livro sui generis. Seu autor, já falecido, desejava mas duvidava que fosse um dia publicado. Não era um escritor por ofício, nem tampouco uma pessoa comum. M.A.S., como é identificado no livro, foi uma pessoa extremamente solitária, acossada por problemas psiquiátricos e que, a partir de certo momento da vida, passou a dividir suas inquietações com uma espécie de diário. Em pequenas notas soltas, manuscritas no verso de panfletos ou datilografadas, alimentava a intenção de que aquilo se tornasse um livro.

Eis que, onze anos após seu desaparecimento, sua irmã, a jornalista e crítica de cinema Susana Schild, e seu sobrinho Marcelo Schild Arlin realizaram seu tímido desejo. Vida de Papel é uma seleção de fragmentos nos quais M. expunha sua inteligência e sua imensa dor de viver. O que ele um dia chamou de um livro “suicida”.

Com um misto de singeleza, total transparência e apreensão pelo julgamento de eventuais futuros leitores, essas notas nos mostram o que é uma vida vivida quase que somente na imaginação. À espera de se definir sexualmente entre a fixação pelos pênis alheios e uma vaga intenção de constituir família padrão, M. sofria e sofria com a irrealização de suas aspirações. Sua moral era o desejo. Daí que relatasse, de maneira quase ingênua, as caminhadas pela praia para discretamente contemplar “o baixo-ventre” dos banhistas de sunga, a hesitação entre procurar um massagista profissional que o satisfizesse sexualmente ou a atração nunca concretizada pelo show gay A Noite dos Leopardos na Galeria Alaska.

Ao contrário do que o parágrafo anterior possa dar a entender, não se trata de um simples compêndio de confissões homossexuais ou talvez bissexuais. As anotações de M. trazem considerações espertas sobre sexualidade e constituem um perfil de enorme interesse psicanalítico. Ao fantasiar um homem que fosse seu amante e amigo ao mesmo tempo, ele atribuía essa procura à ausência do carinho paterno em sua formação. Além disso, ali estão as repetições obsessivas, a queixa pelas promessas alheias não cumpridas, a transferência de culpa para o psicanalista por suas angústias, a consciência aflita por causa dos pensamentos transgressivos… e uma relativa confiança na teshuvá, o conceito judaico de arrependimento que haveria de salvá-lo. Por via das dúvidas, localizava em certo trecho da Bíblia uma analogia para o homossexualismo sem culpa.

Vida de Papel tem também um inegável valor literário. Ora encontramos a candura de uma reflexão infantil, ora o raciocínio sofisticado de um homem culto. Há humor e perspicácia de sobra em muitas considerações de M. sobre sua condição. A escrita tem ritmo e tira excelente proveito do formato curto, com noção de síntese e arremates surpreendentes. Afora o mérito dos organizadores a partir dos milhares de fragmentos deixados pelo autor, é fato que estamos diante do trabalho de um escritor privilegiado.

 

7 comentários sobre “69 anos de solidão

  1. Pela sensibilidade da sua escrita, já vejo como necessária a leitura de M.A.S e seus pequenos fragmentos de um discurso amoroso. A vida de papel que se dobra e desdobra como a arte do origami. Só podia ser irmão de Schild.

  2. Querido Carlinhos,

    Foi com muita emoção que li suas tocantes palavras sobre o livro do meu tio. M.A.S. viveu na solidão e no mais total anonimato e a missão de tornar públicos seus escritos foi enfrentada com o mais profundo carinho por sua pessoa e sua memória, carinho este também estendido por você com sua empatia e a percepção de que ele jamais poderia ser retratado de maneira superficial ou simplista. Como todas as pessoas, M.A.S. era complexo e repleto de sonhos e frustrações e, para ele, a única maneira possível de lidar com sua vida interior foi transformando-a em uma vida de papel. Obrigado pela generosidade e pelo afeto.

    Marcelo Schild Arlin

    • Marcelinho, estendo a você o que respondi à Susana aqui. “Vida de Papel” é um exemplo de coragem, carinho e respeito no trato com o legado do seu tio.

  3. E que título perfeito: 69 anos de solidão!
    Muito muito obrigada.

  4. Querido Carlinhos,

    Suas palavras me deixaram em lágrimas.

    Com que sensibilidade você atingiu e transmitiu a essência do meu irmão ao longo de uma vida tão sofrida, com tantos sonhos não realizados, mas mesmo assim, enfrentada com rara lucidez e dignidade.

    Não tenho como agradecer seu olhar, um olhar que M.A.S. dificilmente recebeu em sua vida de papel.

    Uma vida invisível em busca de uma acolhida que você, tão generosamente, oferece.

    Muito, muito obrigada!

    SUSANA SCHILD

    (TENHO CERTEZA DE QUE MARCELO ASSINARÁ EMBAIXO)

    • Susana querida, os escritos do seu irmão me emocionaram e motivaram cada palavra do meu texto. Nós, leitores, somos gratos a ele pelo testemunho e a você e ao Marcelo pela iniciativa do livro e pelo cuidado no que foi feito.

Deixe uma resposta