Saiu há pouco pela editora 7 Letras um livro sui generis. Seu autor, já falecido, desejava mas duvidava que fosse um dia publicado. Não era um escritor por ofício, nem tampouco uma pessoa comum. M.A.S., como é identificado no livro, foi uma pessoa extremamente solitária, acossada por problemas psiquiátricos e que, a partir de certo momento da vida, passou a dividir suas inquietações com uma espécie de diário. Em pequenas notas soltas, manuscritas no verso de panfletos ou datilografadas, alimentava a intenção de que aquilo se tornasse um livro.
Eis que, onze anos após seu desaparecimento, sua irmã, a jornalista e crítica de cinema Susana Schild, e seu sobrinho Marcelo Schild Arlin realizaram seu tímido desejo. Vida de Papel é uma seleção de fragmentos nos quais M. expunha sua inteligência e sua imensa dor de viver. O que ele um dia chamou de um livro “suicida”.
Com um misto de singeleza, total transparência e apreensão pelo julgamento de eventuais futuros leitores, essas notas nos mostram o que é uma vida vivida quase que somente na imaginação. À espera de se definir sexualmente entre a fixação pelos pênis alheios e uma vaga intenção de constituir família padrão, M. sofria e sofria com a irrealização de suas aspirações. Sua moral era o desejo. Daí que relatasse, de maneira quase ingênua, as caminhadas pela praia para discretamente contemplar “o baixo-ventre” dos banhistas de sunga, a hesitação entre procurar um massagista profissional que o satisfizesse sexualmente ou a atração nunca concretizada pelo show gay A Noite dos Leopardos na Galeria Alaska.
Ao contrário do que o parágrafo anterior possa dar a entender, não se trata de um simples compêndio de confissões homossexuais ou talvez bissexuais. As anotações de M. trazem considerações espertas sobre sexualidade e constituem um perfil de enorme interesse psicanalítico. Ao fantasiar um homem que fosse seu amante e amigo ao mesmo tempo, ele atribuía essa procura à ausência do carinho paterno em sua formação. Além disso, ali estão as repetições obsessivas, a queixa pelas promessas alheias não cumpridas, a transferência de culpa para o psicanalista por suas angústias, a consciência aflita por causa dos pensamentos transgressivos… e uma relativa confiança na teshuvá, o conceito judaico de arrependimento que haveria de salvá-lo. Por via das dúvidas, localizava em certo trecho da Bíblia uma analogia para o homossexualismo sem culpa.
Vida de Papel tem também um inegável valor literário. Ora encontramos a candura de uma reflexão infantil, ora o raciocínio sofisticado de um homem culto. Há humor e perspicácia de sobra em muitas considerações de M. sobre sua condição. A escrita tem ritmo e tira excelente proveito do formato curto, com noção de síntese e arremates surpreendentes. Afora o mérito dos organizadores a partir dos milhares de fragmentos deixados pelo autor, é fato que estamos diante do trabalho de um escritor privilegiado.

