Um contista genial

por Paulo Lima

Três ideias costumam se destacar entre todas que procuram explicar o gênero conto.

Há a ideia de Ernest Hemingway, que diz que cada conto mostra, como um iceberg, apenas uma parte visível da história. Há também a ideia de Júlio Cortázar, que atribui ao conto o efeito de um nocaute. E há a de Ricardo Piglia, segundo a qual um conto narra sempre duas histórias.

Ainda que essas concepções resultem de escritores engenhosos, portanto com autoridade para falar do seu ofício, é possível questionar se bastariam para dar conta do amplo arco que abrange o conto contemporâneo.

Penso, por exemplo, nos contos de Victor Giudice (1934-1997), recém-lançados num primeiro volume, na coletânea “O arquivo e outras histórias” (Kotter editoral), organizada por Eneida Santos, viúva do escritor.

O livro está dividido em duas partes contendo os dois primeiros livros de Victor Giudice, “Necrológio” e “Os Banheiros”.

Abrindo o volume, o conto “O arquivo”, talvez o mais conhecido de Victor Giudice, já anuncia seu estilo marcado pelo absurdo, a radicalização da linguagem e o humor irônico, por vezes sarcástico. Nele, a vida de um empregado se reduz na mesma proporção em que o patrão diminui seu salário. A narrativa, contudo, não é conduzida pela chave do realismo, mas da ironia e do nonsense.

A primeira parte da coletânea aprofunda o mergulho radical na linguagem, com contos como “Synephriza”, que traz a história de um órfão criado pela avó; “A peregrinação da velha Auridéia”, sobre um mendigo; “Grão Medalha”, sobre a avareza de um agiota; “Os pontos de Harmonisópolis”, sobre a violência na periferia das grandes cidades brasileiras; “In perpetuum”, sobre a rotina de um bancário.

Ali, temos um escritor voltado para as nossas mazelas sociais e existenciais – não à toa o título nada alentador desse seu primeiro livro, “Necrológio” -, mas distante anos-luz do realismo que, à época em que Victor o escreveu, década de 1970, impregnava nossa literatura.

A experimentação da linguagem é levada ao paroxismo, num grau de invenção digna da combinação das sintaxes de um Guimarães Rosa e de um James Joyce – creio que mais afim ao irlandês de “Finnegans wake”.

Veja-se o seguinte trecho. “A mulher arrastou os sapatos brancos na calçada, fez outro sinal da cruz, arrastou os sapatos brancos, fez outro sinal da, arrastou os sapatos, fez outro, arrastou, outro, arrastoutro, rastroutro, rastou, rastou” (do conto “A peregrinação da velha Auridéia”).

Entre a invenção e o humor, os contos exorbitam em soluções narrativas pontuadas por imagens incomuns, em que forma e conteúdo contribuem para criar um efeito insólito friccionando pólos aparentemente antagônicos de familiaridade e estranheza.

“Espera a condução, a viagem de pé, mãos no balaústre, espiando a revista do passageiro sentado. Mas só saltou dois anos depois”, Victor descreve no conto “In perpetuum” a cena em que o empregado Debi Mediocriz se dirige ao trabalho num banco. Note-se o nome do personagem e do conto, no qual o escritor retrata a dura rotina de um bancário – e, por extensão, do trabalhador brasileiro -, submetido a um cotidiano árido, desumanizado.

Detalhe: Victor Giudice foi, entre as muitas atividade que exerceu, funcionário do Banco do Brasil. Foi, na verdade, um polímata: romancista, contista, dramaturgo, crítico literário e musical e exímio pianista.

Como apontou a professora de literatura Tereza Virginia de Almeida no prefácio à coletânea, a experimentação com a linguagem, característica dessa primeira fase da literatura de Victor Giudice, pode ser creditada a essa sua bagagem de pianista.

É como se ele mimetizasse, na escrita, a linguagem da música: a disposição do texto na página, com interposição de barras e separação de sílabas. E é como se a página espelhasse a partitura e as duas mãos executando harmonias diferentes e simultâneas sobre as teclas do piano.

Na segunda parte da coletânea, correspondendo aos contos do livro “Os banheiros”, o experimentalismo se atenua, mas não o clima de estranheza marcada pela força narrativa. No conto “Os banheiros”, a história exibe uma surpreendente candura nas reminiscências de um neto diante de seu avô.

Ali, é a linguagem que mais uma vez cintila, como na descrição incomum da personagem daquele avô: “O avô tinha um jeito de tio solteirão. Cento e oitenta centímetros repartidos em tíbias, perônios, fêmures, costelas, clavículas e ossos mais. Um olhar de lanterna mágica iluminando os dedos anelados em balas de coco e caramelos de nata”.

Victor Giudice justificava sua literatura dizendo que “a ficção parece absurda porque é a realidade despojada de todas as mentiras”. Estão aí seus contos como reflexo dessa mais pura (e dura) verdade. Eis um contista genial.

Paulo Lima

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