Apesar do título e das falas desbocadas dos personagens, O Filho da Puta se deita em leito habitual e até mais bem comportado do que os de outras animações assinadas pelo gaúcho Otto Guerra. Aqui não temos o gume de parceiros como Angeli (Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll) e Laerte (A Cidade dos Piratas). Na direção ele é acompanhado pelos mineiros Sávio Leite e Tania Anaya, mais a paulista Erica Maradona, trabalhando a partir de um roteiro da baiana Carla Guimarães, que mora em Madri.
Tudo se passa no ambiente e na mítica de um sertão picaresco, que acena a Guimarães Rosa (a pequena cidade de Veredas no semiárido mineiro), a Glauber Rocha (o sol do cartaz de Deus e o Diabo na Terra do Sol) e à estética da xilogravura sertaneja. O ícone do puteiro cravado no vilarejo respeitável também não foge ao lugar comum. A prostituição, diz-se, é o único negócio que prospera por ali.
Ismael (voz de Gabriel Martins) é filho da trabalhadora do sexo mais famosa do lugar. Cansado de ser chamado para consertar tudo o que enguiça na cidade, o vulgo Filho da Puta decide remendar sua própria identidade. Sai em busca do pai desconhecido, levando consigo o cachorro perneta Bacalhau (voz de Matheus Nachtergaele).
O desenho é simples, unidimensional, às vezes tosco mesmo, mais próximo da charge. Combina com o humor algo escrachado, só recebendo tratamento mais sofisticado numa sequência de visão fantástica de Ismael. É quando a figura de Moby Dick, de Herman Melville, se concretiza como metáfora da busca pelo pai.
Em seu périplo do sertão mineiro ao litoral da Bahia, Ismael vai cruzar com emblemas de fábulas rurais: a prostituta iniciadora de rapazes, os romeiros, as miragens, um assaltante-cantor, dois policiais siameses, um rapaz parricida. Ismael vive sua jornada de amadurecimento entre espelhamentos de si mesmo até a conclusão de que está sozinho para construir o seu próprio mundo.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/o-filho-da-puta




