Diversas sensações de estranheza me atravessaram enquanto assistia a Rosebush Pruning. A primeira delas foi a de estar perdendo tempo com uma série de faniquitos de gente ultrarrica para quem a grife dos sapatos e a cor das roupas importava mais que tudo na vida. Depois veio a repulsa por alguns gestos que indicavam perversões mais escatológicas que propriamente eróticas.
Em seguida, senti o desconforto de ver uma família de expatriados estadunidenses envolvida numa rede de desejos incestuosos e práticas bem pouco ortodoxas até entre amantes de banheiros clandestinos. Por fim, atinei para o prazer excêntrico que Karim Aïnouz e seu elenco estavam tirando e tentando proporcionar com aquele coquetel de baixarias de quem tem tantos meios quanto poucos princípios e nenhum fim.
A referência à poda da roseira (rosebush pruning) como algo necessário à família torna imediata a conexão com o clássico De Punhos Cerrados, de Marco Bellocchio. O roteiro do grego Efthimis Filippou, colaborador assíduo de Yorgos Lanthimos, é uma releitura queer do petardo antiburguês de Bellocchio. Se você não se recorda do que rolava naquele filme, tanto melhor, pois assim vai se surpreender com o desenrolar da trama entre esses quatro irmãos, seu pai cego (Tracy Letts) e sua mãe desaparecida numa propriedade dos arredores de Barcelona.
Há Jack (Jamie Bell), o irmão por quem todos nutrem algum tesão mas está enrabichado com uma forasteira (Elle Fanning). Edward (Callum Turner) é o narrador e articulador da poda da roseira. A voluptuosa Anna (Riley Keough) e o epilético e disfórico de gênero Robert (Lukas Gage) completam o quinteto dominado por um tipo obsceno de culto patriarcal.
A curva dramática evolui da crônica de costumes excêntricos para a claustrofobia sexual e os desenlaces macabros, passando por uma bizarríssima receita para ter os dentes mais brancos e uma dieta alimentar para lobos famintos. Karim Aïnouz e sua já habitual parceira Hélène Louvart na fotografia criaram ambientes ao mesmo tempo sensuais e soturnos, o que não deixa de ter seu apelo um tanto mórbido.
Ao fim e ao cabo, eu me sentia ao mesmo tempo atraído pela ousadia envolvida no projeto e decepcionado pela gratuidade de tudo o que via. No fundo, resta o escândalo um tanto óbvio de reunir laços familiares, opulência, vacuidade e decadência moral.
>> Programação: https://www.festivaldorio.com.br/br/filmes/rosebush-pruning




