Aforismos vagabundos

Definir aforismo: / Eis uma tarefa que mais me foge / Quanto mais cismo.

Na verdade, isso foi só um exercício brincalhão. Aforismo não é tão difícil assim de definir: é uma afirmação curta e de alguma forma memorável, usada para comunicar um pensamento original ou espirituoso. E não necessariamente rimada. Etimologicamente, tem a ver com separar (colocar fora do fluxo) alguma ideia completa. Hipócrates é tido como o pai dos aforismos. Millôr Fernandes é um dos grandes cultores entre nós.

Longe de qualquer pretensão, comecei a dedilhar frases assim, estimulado pela concisão compulsória do Twitter. Mas reservei-me o capricho de fazê-las rimadas, um pouco para compensar, com o efeito, a platitude das ideias. Tenho-as publicado no microblog e aqui reuni as menos canhestras para os visitantes dos meus rastros.

Aí vão:

Gosto de ti e te conheço pouco / Melhor deixar assim / Na intimidade, o saudável fica louco.

Falar a verdade de nós mesmos é problemático / Exige atenção e pé no freio / A mentira está sempre no piloto automático.

O tempo é vinho ou é cachaça? / De que serve passar bem o dia / Se o dia, como a uva, passa?

Queira ou não, sou um homem antigo / Fumo, amo o silêncio, carrego lenço / E ainda telefono pra amigo

Um sonho pode ser inspiração decisiva ou aventura vã / Tudo depende / Do que ficou de manhã.

Entrar em outro é tão difícil quanto sair de si / Encerrado em mim / Tateio territórios que jamais conheci

Se o incêndio do Butantan fosse no tempo de Adão e Eva / Talvez estivéssemos livres / Do fardo que o Homem leva

Tudo o que aprendo, divulgo / Se um dia esquecer / Busco no Google

Onde estamos: é o que acontece / Quem somos: é o que sempre prevalece / Melhor então não confundir DNA com GPS.

No céu, reforma editorial / Com a chegada de Saramago / Português vira língua oficial

8 comentários sobre “Aforismos vagabundos

  1. Gostei ainda mais especialmente dos 6, 7, 8 e 9, com destaque para o sexto: “Entrar em outro é tão difícil quanto sair de si” é uma bela definição do esforço no trabalho psicanalítico de tentar empatia – nada a ver com “simpatia” nem com identificação – , mas sim no sentido de conseguir apreender algo alheio, inerentemente estranho ao próprio eu que se esforça em perceber o outro na alteridade de fato.
    Maravilha! Vou colar, vou citar, vou dizer que fui eu quem escreveu.
    Afinal, agora estou falando de identidade: Quem escreveu? foi o outro ou fui eu?

  2. Maravilhoso!
    Ia escrever um e-mail falando das filmagens do fim-de-semana, mas depois de ler o 4º aforismo seu decidi telefonar. Só que não te encontrei. Vou tentar depois.

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