SALVAÇÃO
Em 4 de maio de 2009, num vilarejo curdo do norte da Turquia, doze homens armados atacaram uma cerimônia de casamento de clã rival e executaram 44 pessoas, em sua maioria mulheres e crianças. O evento chamou a atenção para as rivalidades étnicas que prevalecem sobre a ideia de uma difícil união curda através de vários países.
Inspirado pela história desse massacre, o diretor turco Emin Alper (autor do magnífico O Conto das Três Irmãs) concebeu Salvação (Kurtuluş) como um exame entomológico da gênese de um genocídio étnico. A aldeia remota nas montanhas, a estrutura labiríntica das casas de pedra e a rusticidade dominante formam um cenário que é também metáfora do pensamento tortuoso de seus moradores.
O sheik Ferit (Feyyaz Duman) lidera o grupo dos Hazerans e mantém boa relação com os Bezaris, que habitam a vila no sopé da montanha. Bezaris e Hazerans se davam bem no passado, mas agora os primeiros querem retomar suas terras, que foram ocupadas pelos Hazerans. Enquanto Ferit tenta evitar um banho de sangue, respaldando sua autoridade na ancestralidade, seu irmão Mesut (o fantástico Caner Cindoruk) é movido por outros sentimentos.
Mesut é um homem assediado pelo ciúme e por sonhos perturbadores. O entorno contribui para sua paranoia: um menino sonâmbulo que faz premonições, intrigas a respeito do passado de sua mulher e o ódio aos Bezaris disseminado entre os habitantes. O caldo de cultura se adensa com a ascendência religiosa dos dois irmãos sobre os demais e toda a manipulação que dela fazem. Na pequena mesquita local, os fiéis se entregam a transes coreográficos que alimentam tanto a coesão quanto os dissensos.
O estado se faz pouco presente, deixando que as milícias rurais combatam os ativistas do PKK, o partido separatista turco. Assim se formam as Guardas de Vila, outro motivo de disputa entre Hazerans e Bezaris.
O filme requer do público um certo esforço inicial para discernir o papel dos personagens e suas relações, mas não custará muito para que tudo fique bem claro. O paralelo islâmico com Caim (Qabil) e Abel (Habil) se estende dos irmãos Ferit e Mesut para as duas etnias em conflito. A crença de que, em cada dois irmãos gêmeos, um foi fecundado pelo diabo ajuda a empurrar Mesut para a rebelião contra Ferit e o desenlace sangrento.
Fotografado com requintes de iluminação e de valorização da paisagem campestre, interpretado com grande vigor pelo elenco, Salvação cresce assustadoramente na sua meia hora final e se conclui com a abertura para uma pálida ideia de justiça. Um belo filme sobre um mundo sem beleza.
>> Salvação está nos cinemas.




