Tonya e o avesso do sucesso

Numa história como a da patinadora no gelo Tonya Harding, é difícil distinguir o que seja realidade bruta e ficcionalização, uma vez que as duas coisas se fundem na lógica da sociedade do espetáculo. EU, TONYA incorpora essa ambivalência na maneira de narrar, com um patim na dureza da tragédia e outro na areia fofa do entretenimento.

Tonya foi uma grande atleta americana que apanhou, nos sentidos literal e figurado, de quase todos os que a rodeavam na juventude: a mãe tirânica e desamorosa, o marido tipo agressor-apaixonado, o amigo do marido envolvido com o crime barato, os juízes esportivos que a censuravam por não representar bem a imagem da América. Assunto para um filme sombrio e depressivo. Afinal, essa é uma “success story” pelo avesso.

Não que isso esteja ausente, mas a opção do diretor Craig Gillespie e do roteirista Steven Rogers foi por diluir o infortúnio numa nuvem de comédia e diversão. Assim, os algozes de Tonya ganham ares quase clownescos em sua canalhice e mitomanias imbecis. Sobretudo a mãe (Allison Janney, premiada com o Globo de Ouro e concorrente ao Oscar de atriz coadjuvante), que mais parece uma malvada saltando das páginas de algum conto de fadas.

Embora haja relativamente poucas cenas nos rinques de patinação, Gillespie filma tudo como uma série de rodopios dramatúrgicos e efeitos coreográficos de edição. Os personagens com frequência interrompem a narrativa, quebram a quarta parede, desmentem o que está sendo mostrado, aparecem em supostas entrevistas. Há um certo charme nisso, sem dúvida, o que explica a indicação para melhor montagem, mas está mais para truque do que para abertura de novos enunciados.

Ainda assim, o filme é prazeroso de se ver e tem o seu grande trunfo, vale dizer o seu triple axel (salto triplo), na atuação inebriante da australiana Margot Robbie. Seria dela meu voto para o Oscar de melhor atriz. Não apenas pela performance nos rinques, fruto de quatro meses de treinamento e de alguns efeitos digitais e de edição nas piruetas mais ousadas. Ela nos sidera a cada minuto com uma encarnação furiosa da virulência e da fragilidade de Tonya. Além de linda e talentosa, Margot ainda produz seus filmes. Salto triplo é isso aí.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s