Utopia cosmética africana

Não me meto a fazer considerações específicas sobre filmes de super-heróis porque não tenho essa cultura nem muita paciência com o gênero. Mas o caso de PANTERA NEGRA merece atenção especial. Não só por ser o primeiro blockbuster americano nessa linha a ser protagonizado por heróis all black (não nos esqueçamos do brasileiro “Besouro”), mas por ter sido feito com a mira em diversas pautas da atualidade.

O filme procura resgatar a majestade das cortes africanas e propõe uma realidade paralela na qual um país isolado da África detém imensa superioridade moral e tecnológica sobre o mundo branco. Em Wakanda, além disso, as mulheres são empoderadas também nos quesitos marcial e científico. Enfim, um paraíso de afirmação racial e de gênero.

PANTERA NEGRA acerta muito ao preservar o espírito tribal da nação africana, com as intrigas e rivalidades internas inerentes. Mas é curioso como faz tudo isso convergir não para o conflito, mas para a nobreza do entendimento e um sentido de magnanimidade próprio de quem está no mundo há muito, muito tempo.

Outro aspecto a destacar é a discussão sobre como Wakanda deve se abrir para o exterior. Cabe aos vilões defender a revolta. Para esses, o poderio bélico do país seria colocado a serviço das lutas de libertação dos oprimidos, como na esquerda internacionalista dos anos 1960. Aos verdadeiros heróis, contudo, cabe proteger Wakanda e exportar somente sua inteligência e sua generosidade – como se vê numa das duas cenas colocadas em meio aos créditos finais. Há quem veja ali uma crítica ao imperialismo anglo-americano. Eu vejo a fidalguia bem-pensante tomando o lugar da revolução anticolonialista conforme o catecismo da Marvel. Cada época e cada quadrante com sua ideologia.

Reparei ainda como os índices de negritude ocupam majoritariamente a superfície cosmética do filme de Ryan Coogler. Cantos, danças, ervas mágicas, palhoças, savana e uma paleta de cores fortes criam toda uma ambientação “nova” para o gênero. No entanto, a estrutura dramática permanece ligada a valores “brancos”.

A metrópole de Wakanda é uma “Blade Runner” afro, com cestas de palha e churrasquinho convivendo com ferrovias ultrassônicas, arranha-céus mirabolantes e moradores trendy. Na concepção e realização das cenas, os modelos são James Bond, “Kill Bill”, “Game of Thrones”, “Kingsman”, antigos filmes de gladiadores, etc, em vez de narrativas mitológicas que estariam na base de uma utopia africana autóctone.

Enfim, PANTERA NEGRA me pareceu somente um gibizão levado às telas com apetite e senso de oportunidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s