Patologias da América profunda

É surpreendente que um filme “pequeno” como TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME, com seu jeito meio indie, tenha derrotado “Dunkirk” e outros favoritos para o Globo de Ouro de melhor drama e esteja chegando como um dos favoritos ao Oscar. Mais ainda que tenha ganho o Globo de Ouro de roteiro, onde não faltam incongruências e coincidências que o fragilizam bastante. Mesmo assim, traça um quadro de sociopatia muito definidor do Centro-Oeste americano.

O Missouri é um dos estados mais racistas dos EUA. Aqui esse racismo fica no subtexto, já que a ação se passa quase exclusivamente entre brancos. O que indica, aliás, a brutalidade como um dado que independe do preconceito racial, já que é a supressão do pensamento crítico e do senso de proporção na maneira como se rejeita tudo o que possa ser considerado um desvio da norma – um negro, um anão, uma menina rebelde, um rapaz branco que esteja “do lado errado”, uma mulher intempestiva.

A aparente banalidade do incidente inicial – três outdoors cobrando justiça à polícia – se desenrola numa cadeia de ódios, ameaças e vinganças, sem promessa de redenção. Mildred e Dixon (Frances McDormand e Sam Rockwell, ambos premiados no Globo de Ouro) são criaturas até certo ponto semelhantes, embora estejam em lados opostos do conflito. Ela, empenhada em identificar o homem que estuprou e matou sua filha, remorde-se de culpa e não vê limites para o que entende como justiça. Ele, mimado por uma mãe fascista, só enxerga a ultraviolência como forma de punição. Entre os dois está o chefe de polícia (Woody Harrelson), cuja personalidade se desdobra como uma surpresa trágica para o espectador.

Um dos fatores de adesão ao filme escrito e dirigido por Martin McDonagh é o humor que irrompe nas horas mais, digamos, inapropriadas. Coquetel estranho esse de comicidade, patologia e violência numa América profunda que sai aos socos com suas próprias raízes.

Não quero questionar a premiação da sempre excepcional Frances McDormand, mas em TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME não vi nada que ela já não tenha feito com a mesma competência em tantos filmes. Na verdade, esse é um papel que ela deve ter desempenhado sem grande esforço. Na verdade mesmo, embora seja a detonadora da história, sua personagem nem chega a ser a principal, posto que cabe a seu antagonista, o policial psicopata vivido com gana demente por Sam Rockwell. É ele quem ocupa o maior tempo de tela e passa pelas mais graves situações. O filme chegou a ser criticado nos EUA por conta de seu personagem se encaminhar para uma suposta redenção. Aliás, uma interpretação equivocada do incômodo e negativo desfecho.

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