Incelença para um ator de ferro

IRAN, que deve entrar em cartaz um dia desses

Enquanto fazia a direção de fotografia de Redemoinho, de José Luiz Villamarim, em 2017, Walter Carvalho registrou o processo de preparação de Irandhir Santos para fazer o personagem Luzimar, um operário introvertido e silencioso. IRAN não quer saber de nada pela via discursiva. Apenas observa o ator, bem de perto, em seus exercícios solitários.

Em grande parte do tempo, Irandhir está enfurnado num cubículo estreito, que sugere o modo de ser de Luzimar. Nesse espaço exíguo ele salta, se contorce, comprime o corpo contra as paredes e produz ruídos guturais, como se fosse um animal enjaulado. Outros longos momentos são consumidos com o ator sozinho, prescrutando a noite de Cataguases, antes que um trem passe por ele como uma epifania final.

O terceiro elemento explorado por Walter Carvalho é o roteiro do filme, de que Irandhir se apropria num caderno próprio e acrescenta anotações e desenhos. Tudo parece fazer parte de um processo de imantação do ator pelos signos que ele atribui ao personagem. Um processo que alguém já chamou, muito adequadamente, de xamânico.

Em seu uso radical do tempo dilatado e na tomada da figura do ator como uma forma plástica (escultural), IRAN levanta duas questões. Até que ponto o filme está documentando a elaboração íntima de Irandhir ou vampirizando-a para o desejo de experimentação do diretor (sei que Walter não aprova o termo “experimental” nesse caso, mas que fazer?). A outra questão: ao presenciarmos o que teoricamente não é para ser visto, o não visto deixa de ser recôndito e passa a ser performance. O ator vira personagem de si mesmo, semente de uma contradição.

Estas são interrogações menores, sem dúvida, perante um filme tão convicto do seu lugar de observação não neutra, mas assumidamente artística. As imagens monocromáticas, de um preto e branco sem lugar para o cinza, e o tecido sonoro denso e concreto parecem sondar na mente do ator os segredos de sua criação. Um pouco como fez Eryk Rocha no seu Jards. Os dois são investigações em que o cinema é mais parceiro do que simples veículo.

P.S. O título desta resenha faz alusão ao curta Incelença para um Trem de Ferro, de Vladimir Carvalho, fotografado por seu irmão Walter Carvalho.

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