Mostra SP: “O Melhor Lugar do Mundo é Agora”

Aqui onde a cor é clara / Agora que é tudo escuro

A grande maioria dos documentários gravados durante a pandemia em regime de distanciamento social é composta por depoimentos sobre a vivência desse momento. São relatos, reflexões e desabafos a respeito da perplexidade e das angústias por que estamos passando, bem como os mecanismos de superação que colocamos em prática. O novo filme dirigido por Caco Ciocler (Esse Viver Ninguém me Tira, Partida) é uma das poucas – e talvez a melhor – exceção a essa frequência.

Caco reuniu virtualmente 11 atores e atrizes para falarem do seu ofício. Ninguém sequer cita a Covid, nem nada relacionado a ela. Estão simplesmente isolados em suas casas, criando narrativas ficcionais a partir de uma proposta do diretor, melhor expressa em suas próprias palavras:

“O discurso com inspirações nazistas do ex secretário de cultura [Roberto Alvim], sugerindo libertar a arte sei lá de quê, me fizera já pensar em campos de desconcentração, onde os artistas seriam submetidos a exercícios de trabalho forçado de desenvolvimento de sensibilidades, tornando-os seres condenados, para sempre afetados e descolados de uma sociedade voltada à utilidade e aos resultados. Foi essa a premissa que contei aos atores e atrizes convidados, pedindo que criassem a partir dela uma narrativa ficcional, mas calcada em experiências reais. Sem saber como cada um entenderia a provocação, marcamos as entrevistas, onde passei a conhecer e cocriar narrativas num grande exercício de improviso”.

À medida que o elenco se reveza na tela, vai se desenvolvendo uma história comum de adolescentes tocados pela semente do teatro, os exercícios de formação (alguns hilariantemente demonstrados diante das câmeras), um pensamento sobre a “inutilidade” da arte da representação e sobre as estatégias diabólicas usadas pela tradição teatral para forjar artistas.

Os deslizamentos entre realidade e ficção, sinceridade e ironia, pessoa e personagem são ora explícitos, ora dissimulados. A manipulação interna das emoções é objeto de cenas capazes de nos deixar indecisos entre o riso e o choro. Há uma inteligência compartida entre atores e diretor que chega ao espectador como um deleite e, ao mesmo tempo, uma atitude política. Afinal, O Melhor Lugar do Mundo é Agora se dirige à distopia do Brasil atual, em que a prevalência do fascismo definiu a arte como coisa imprestável.

Caco abre o filme com um vitupério do ogro-presidente e o encerra com a inesquecível canja que Kofi Annan deu a Gilberto Gil num show na ONU em 2003, seguida por uma fala do então Ministro da Cultura. Entre uma citação e outra, destruiu-se um país e colocou-se uma cultura em risco de incêndio e paralisação. Indiretamente, é disso que aquela gente fala no filme, com um misto de humor e tristeza.

Mas também se fala de “desconcentração”, “gilbertismo”, “USHIP” e outras mumunhas que vale a pena descobrir nessa viagem deliciosa pela arte de enganar. Com esse terceiro filme, Caco Ciocler se posiciona como um dos mais criativos engendradores de hibridismos cinematográficos no país.

>> O Melhor Lugar do Mundo é Agora está disponível somente na terça, 26/10, das 19h às 23h, na plataforma Itaú Cultural Play.  

Veja um teaser:

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