Mostra SP: “Visões do Império” e “Jane por Charlotte”

Paulo Lima resenha dois documentários disponíveis na Mostra Play.

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As falsas imagens do império português

por Paulo Lima

Nascida em Luanda, capital de Angola, a realizadora Joana Pontes lançou-se num projeto vasto, um trabalho de formiguinha. Ao folhear álbuns de fotos de sua família, ela teve a ideia de explorar a história colonial de Portugal por meio da fotografia.

A empreitada resultou no documentário Visões do Império. À cata do material que desse forma ao seu tema, Joana procurou várias fontes. De início, visitou a Feira da Ladra de Lisboa. Na profusão de imagens à venda, ela localizou aqui e ali fragmentos da vida nas colônias portuguesas.

Os momentos iniciais do filme dão a impressão que Joana vagueia um tanto sem rumo. O ritmo do documentário se faz lento, como o observar cuidadoso de uma fotografia. A diretora tem seus nortes – alguns livros de fotógrafos que se debruçaram sobre a história do império português. À medida que ela se orienta por esse fio condutor, o documentário se torna interessante e revela sua substância.

Joana percorre arquivos oficiais, museus e fundações em Lisboa e Coimbra. Nesse trajeto, conta com as intervenções de pesquisadores e estudiosos. Dois deles em especial, Filipa e Miguel Jerónimo, oferecem um rico e empolgante substrato do que representaram os ideais colonialistas portugueses – desde o século 19 até o fim do salazarismo, em 1974- , tendo como instrumento de análise a produção fotográfica do longo período.

Por meio da fotografia, o imperialismo português objetivou desenvolver e impor uma narrativa de união e harmonia, nada mais distante da realidade marcada pelo racismo e pela violência. A gestão em colônias como Angola e Moçambique se sustentava num processo escravagista. Era completamente falsa a visão multirracial que o império buscou construir.

Diz-se que uma foto vale por mil palavras. O trabalho de Filipa trata de desmistificar essa máxima. No caso do imperialismo português, ela chama a atenção para a necessidade de se examinar os textos que normalmente são escritos nos versos das fotos, pois ali está a chave para se entender as ideias reais do colonizador. Uma das fotos que ela examinou, por exemplo, mostra uma nativa africana com seu pequeno filho. A imagem não passaria de um pitoresco e belo registro etnográfico, não fosse pelo texto no verso expondo uma visão racista das mulheres africanas. Tratava-se, segundo Filipa, de banalizar a violência da colonização.

Como bem resumiu Miguel Jerónimo, “a fotografia foi central para a imaginação do império”, vendendo uma irrealidade, cujo véu o filme sensível de Joana Pontes procura desnudar, sentindo-se ela própria modificada ao final: “Meu olhar já se transformou, para além da beleza das imagens e dos enquadramentos”. Seu filme constitui uma peça que contribui para restaurar a visão e a verdade histórica.

Paulo Lima



Em nome da mãe

Pode ser uma imagem de 2 pessoas, pessoas sentadas, ao ar livre e árvore

Mais do que uma homenagem, o documentário Jane por Charlotte representa uma viagem exploratória. Jane é Jane Birkin. Charlotte é Charlotte Gainsbourg. Mãe e filha.

Jane Birkin despontou para a fama ao cantar com Serge Gainsbourg a canção sensualíssima “Je t’aime moi non plus”. Ainda jovem, depois de se separar do seu primeiro marido John Barry, a então bela jovem inglesa deixou seu país e foi viver na França. Lá, conheceu Serge, e o resto é história.

Charlotte Gainsbourg, atriz e cantora como a mãe, nasceu desse relacionamento. Seu filme sobre Jane Birkin faz as vezes de uma espécie de terapia, com a filha buscando entender seu relacionamento com a mãe e sua personalidade.

Para tanto, se aproxima da mãe e entabula uma longa conversação entre ambas, tendo como cenário vários locais.

O filme começa com Charlotte acompanhando Jane durante uma apresentação dela no Japão. Prossegue na casa de Jane na Normandia. As duas filhas de Charlotte a seguem durante as filmagens, conferindo ao filme um aspecto geracional. Da subjetividade da mãe, Jane extrai uma personalidade marcada pelas agruras do envelhecimento e de uma tragédia do passado. Sua primeira filha Kate, fruto de seu relacionamento com John Barry, cometeu suicídio em 2013.

Remoendo o passado, Jane se recusa a ver os vídeos da infância de Kate. Queixa-se da solidão. Numa das cenas em que caminha com a filha na paisagem normanda, ela diz: “Dormir sozinha é muito difícil mesmo num lugar agradável. Estou passando por um momento difícil.”

Num dos momentos talvez mais marcantes do filme, mãe e filha visitam a casa de Serge Gainsbourg, onde compartilham lembranças em comum. Jane não ia ao local há 30 anos.

Outro instante revela a distância do passado. Na entrada do Teatro Beacon, em Nova York, onde mãe e filha farão uma apresentação, um fã se aproxima das duas mulheres e pede um autógrafo a Charlotte, parecendo desconhecer Jane Birkin.

“Tudo parece tão distante no passado”, lamenta Jane noutra passagem do documentário. Passado que emerge agora na forma de uma declaração de amor filial, com o filme terno de Charlotte Gainsbourg.

Paulo Lima


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