O PRESIDENTE IMPROVÁVEL
Lançado nos cinemas em 2022, O Presidente Improvável estreia nesta sexta-feira (28/8) no canal Curta!. Só agora vi o documentário dirigido por Belisario Franca. É chapa branca, sem dúvida, chancelado e ambientado na Fundação Henrique Cardoso e contando com três grandes bancos entre os patrocinadores. Mesmo assim, não deixa de ter sua importância como registro do ponto de vista de FHC sobre sua trajetória e a importância que teve num determinado momento da nossa história política.
O grande mérito do filme é ter organizado 21 conversas de FHC, prestes a completar 91 anos, com intelectuais e políticos para depois montar fragmentos de maneira fluida e natural como se tudo fosse uma única e grande conversa. Entre os interlocutores, sua filha Beatriz Cardoso, Nelson Jobim, Raul Jungmann, Boris Fausto, Persio Arida, Pedro Malan, Gilberto Gil, Celso Lafer e Maria Hermínia Tavares. Além de, virtualmente, Bill Clinton, Alain Touraine e Ricardo Lagos (ex-presidente do Chile).
Um conclave do centro antigo, diríamos, e assim o filme deve ser visto. FHC repete considerações sobre “o nosso tempo”, um tempo que era anterior à invasão da política pelo mundo tecnológico. O presidente improvável desfia sua não-ideologia supostamente conciliatória a partir da posição de um intelectual que acabou sendo arrastado para a política. Comenta a juventude de estudante, a criação do Cebrap, as ameaças da ditadura, a aposentadoria compulsória, a oposição à luta armada e o auto-exílio no Chile. Vem à tona a informação de que dinheiro do Cebrap ajudou a livrar chilenos da perseguição de Pinochet.
Quando o sociólogo e professor iniciava-se na carreira política, Franco Montoro precisou lembrar-lhe que campanha eleitoral não era aula. Tinha que ser direto e insistente. Na Constituinte, FHC redigiu o famigerado Artigo 142, que de vez em quando a direita tenta utilizar para colocar o país sob a tutela dos militares. “Não era essa a nossa intenção”, ele diz. Assim como afirma se arrepender de ter forçado a criação da emenda da reeleição presidencial. “Aquilo era só para a minha reeleição”. O escândalo de corrupção que acompanhou esse episódio fica de fora da conversa.
Da mesma forma, o fato de ter comandado a privataria tucana tampouco é aprofundado quando se fala da participação do estado na economia. Afinal, esse que se assume como um homem de classe média alta confessa que, quando na presidência, procurava inteirar-se dos anseios populares ouvindo um garçom, um motorista e o cuidador da piscina do Planalto. Eram os seus tokens.
Não poderia faltar o capítulo de reivindicação das origens das políticas sociais que marcariam os governos do PT: o Bolsa-Escola, o Comitê dos Mortos e Desaparecidos. A relação com Lula desperta sentimentos ambivalentes no Príncipe da Sociologia: a admiração pelo líder nacional e a visão de um simples adversário na luta pelo poder. Fica a impressão de que FHC jamais compreenderia o Brasil de hoje. O Presidente Improvável relembra bem a sua história, mas a relega a um passado. Recente, mas inexoravelmente passado.
>> O Presidente Improvável passa no canal Curta! dia 28 às 22h. Reprises sábado, dia 29, às 2h e às 15h; domingo, dia 30, às 21h; segunda, dia 31, às 16h; terça, dia 1º de setembro, às 10h.
Já está disponível nas plataformas CurtaOn – Clube de Documentários e Globoplay.




