UM TRISTE E BELO MUNDO
Como seguir amando entre um e outro bombardeio? A lição é ministrada por Mounia Akl e Hasan Akil nos papéis de um casal através de três décadas numa Beirute devassada pelo medo dos ataques israelenses. Essa dramédia romântica à libanesa reúne ingredientes de praxe no gênero, como as coincidências, os planos frustrados pela realidade, os reencontros, os sonhos de evasão… e, como manda a receita contemporânea, um toque de gastronomia.
Um Triste e Belo Mundo tem como título original Nujum al’amal w al’alam, que significa “estrelas de esperança e dor”. A expressão sintetiza muito da vida em um dos países que mais têm sofrido nas últimas décadas. O filme de Cyril Aris, representante do Líbano no Oscar do ano passado, não escamoteia a dor, mas opta mais pela esperança na história de Yasmina e Nino.
Eles nasceram na mesma hora enquanto Beirute recebia mais uma saraivada de bombas. Foram colegas de escola e esboçaram um namoro antes que o destino os separasse por mais de 20 anos. Nino herdou do avô um restaurante, e Yasmina seguiu carreira de consultora internacional. O amor, no entanto, se encarrega de reuni-los novamente.
A atriz e também diretora Mounia Akl, uma espécie de Sophia Loren libanesa, domina o filme com sua beleza, onde se mesclam imponência e sensualidade. Yasmina, traumatizada pela separação dos pais e pelas desgraças vividas pelo país, reluta em constiuir família e está sempre a um passo da emigração. Nino, ao contrário, tem os pés fincados em Beirute, apesar dos dilemas da crise financeira. Essa tensão é explorada no roteiro, que transita entre a infância e a vida adulta dos protagonistas.
As estrelas e uma certa ilha representam o desejo de fuga para um lugar onde haja paz e as noites não sejam escurecidas pelos apagões. Se essas utopias estão longe de se realizar, resta a vivacidade com que os personagens se amam, brigam e se divertem. Sempre ruidosa e intensamente, seja na cozinha, seja no meio da rua ou em qualquer lugar.
Fiquei intrigado pela frequência com que fogos de artifício aparecem colorindo o céu de Beirute. Se isso corresponde à realidade, me parece um descalabro numa cidade sempre ameaçada por bombas. Se for uma licença poética para inverter o sentido das explosões, menos mal. Seja como for, esse bonito filme é um presente inesperado vindo do Líbano, que agora, mais uma vez, está levando as sobras dos conflitos no Oriente Médio.
>> Um Triste e Belo Mundo está nos cinemas.




