O BOLO DO PRESIDENTE
Assim como O Agente Secreto expunha a ditadura brasileira disseminada na sociedade sem mencioná-la diretamente, O Bolo do Presidente (Mamlaket al-qasab) faz o mesmo em relação ao regime totalitário de Saddam Hussein no Iraque de 1990. Sem que ninguém se refira à situação política, até mesmo porque o ponto de vista é de uma menina de nove anos, vemos o autoritarismo se replicar nas relações cotidianas ásperas e abusivas entre professores e alunos, comerciantes e fregueses, e até um caso de pedofilia.
Os retratos de Saddam espalhados pela cidade de Bagdá e os atos patrióticos de louvor ao presidente – então acumulando o cargo de primeiro-ministro – dão conta da personificação máxima do despotismo. O país era obrigado a festejar o seu aniversário como se fosse uma data cívica. É nesse contexto que a pequena Lamia é sorteada para oferecer um bolo comemorativo na escola de sua aldeia nos Pântanos da Mesopotâmia, sul do Iraque.
O contexto é de penúria por conta das sanções internacionais e da severa crise econômica. Para piorar ainda mais, os bombardeios estadunidenses começam a atingir o país para forçá-lo a desocupar o Kuwait.
A saga de Lamia começa com a fuga de um destino servil e a leva à capital em busca dos ingredientes para o bolo. Tem como companhia ocasional Said, um garoto vizinho que sobrevive de pequenos furtos, e o seu galo de estimação, que ela leva numa bolsa pendurada no pescoço e pouco se distingue de um cão doméstico.
Lamia, Said e o galo Hindi vão cruzar seu caminho com diversas manifestações miúdas de arbitrariedade, exploração e oportunismo típicas do momento, numa chave doce-amarga que lembra o humanismo italiano sob agruras do Neorrealismo. Mas também filiam O Bolo do Presidente a uma estirpe de dramas dickensianos modernos como Pixote e Salaam Bombay. Menos amargo que esses, mas ainda assim expressivo de uma infância submetida a uma realidade tirânica.
O diretor Hasan Hadi, influenciado pelo cinema iraniano e ajudado por realizadores estadunidenses, trabalha em ritmo bem distante do frisson contemporâneo – não só nas cenas pastorais da aldeia banhada pelos rios Tigres e Eufrates, mas também nas sequências filmadas em Bagdá. O senso de atmosfera é tal que quase sentimos o cheiro das locações urbanas. Eu não me lembro de uma tal imersão cinematográfica no Iraque.
Além da perícia e do poder sugestivo da mise-en-scène, com seu caráter próximo do documental, outro trunfo do filme são as interpretações. Com destaque especial para a menina Baneen Ahmed Nayyef, uma grande pequena atriz capaz de dominar as sutilezas íntimas e realizar cenas de um empenho físico admirável.
O Bolo do Presidente foi laureado em Cannes com o Caméra d’Or de melhor diretor estreante e com o prêmio do público na Quinzena dos Cineastas. Depois venceu a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Sua ausência entre os indicados ao Oscar de filme internacional foi um cochilo dos votantes. Apesar de algumas condescendências do roteiro, como o papel de um anjo da guarda na figura do carteiro e uma cena musical à guisa de mero “refresco”, este é um filme digno da admiração de qualquer público. Com direito ao bolo real de 50 anos de Saddam Hussein no epílogo.
>> O Bolo do Presidente está nos cinemas.





