DA “NOVA ONDA” DO CINEMA IRANIANO
A Sessão Mutual Films deste mês, no IMS paulista, traz dois filmes da chamada Nova Onda do cinema iraniano, aquela que antecedeu a de Kiarostami & cia., ainda nos anos 1970. Ambos foram dirigidos por realizadores radicados fora do Irã. Têm em comum personagens centrais emocionalmente solitários, atores coadjuvantes não profissionais, a ênfase na observação de rotinas simples, um ritmo fiel ao tempo real das ações e a ausência de trilha musical. No mais, são bastante diferentes.
O Solo Selado (1977) foi o primeiro longa independente dirigido por uma mulher iraniana, Marva Nabili, então morando nos EUA e hoje com 85 anos. Passa-se num vilarejo de vida rudimentar no interior do Irã. Uma família muito humilde está sendo instada a abandonar sua casa sem móveis e suas galinhas para morar na “nova cidade”, onde ficará à mercê do agronegócio. A filha mais velha resiste contra a pressão por casamentos arranjados e entra em depressão, depois em desespero. A solução encontrada é submetê-la a uma espécie de exorcismo.
O filme tem uma beleza serena, ressaltando a paisagem e os ambientes domésticos, com poucas tomadas próximas dos atores, cujas falas foram dubladas por profissionais em estúdio. A jovem protagonista é a atriz profissional Flora Shabaviz. Ela tem um belo momento quando se refugia na mata e retira não só o véu, como também a blusa sob a chuva, num gesto de catarse silenciosa.
Longe de Casa (1975) se passa em Berlim, onde o diretor Sohrab Shahid Saless (1944-1998) vivia na época. No filme, ele se debruça sobre a existência pobre e solitária de imigrantes turcos na metrópole alemã. Entre eles, Hussein, operário metalúrgico interpretado por Parviz Sayyad, o astro mais popular do Irã pré-revolução islâmica. Vemos seu dia-a-dia entre a fábrica (filmada sempre do mesmo ângulo para enfatizar o caráter repetitivo do trabalho), suas travessias no metrô, a convivência morna com os colegas da pensão (atores naturais) e as tentativas canhestras de conquistar qualquer tipo de companhia feminina.
A ambientação plebeia e a dramaticidade patética de alguns personagens de Longe de Casa lembram um pouco os filmes berlinenses de Fassbinder. De resto, é um retrato tocante de pessoas à margem. A cena com uma vizinha alemã idosa deixa claro como a solidão e a melancolia não acometiam somente os imigrantes na Berlim cinzenta que, naquela época, ainda era xenófoba.
>> Os dois filmes serão reprisados neste sábado (27/6). Para mais informações sobre os filmes e cineastas, bem como sobre a programação, consulte o site da Mutual Films.
CHAPLIN E OS TEMPOS MODERNOS
Muitos documentários já foram feitos sobre Charles Chaplin, mas este do canal Curta! tem um recorte especial. Trata do período dos anos 1930 em que Chaplin resistiu ao cinema falado, enfrentou a censura do Código Hays e começou a ser taxado de comunista. Tempos Modernos (1936) criticava os excessos do capitalismo industrial e fazia um paralelo chocante: a modernidade que forçava o cinema a falar seria a mesma que escravizava os trabalhadores nas fábricas fordistas.
Chaplin e os Tempos Modernos, média-metragem de Gregory Monro para a Arte France, percorre esse período político dos EUA e o contexto da passagem do cinema mudo para o falado, quando muitas estrelas sucumbiram por não terem a voz adequada a seus personagens. A resistência de Chaplin culminou com a famosa cena em que ele é obrigado a cantar e improvisa uma pantomima vocal para satirizar a fala compulsória.
O documentário traz depoimentos em áudio de Chaplin e contemporâneos, além de arquivos sem preço de bastidores das filmagens e de figuras célebres como Hays e Ford.
>> Chaplin e os Tempos Modernos estreia no canal Curta! nesta quarta (24/6) às 22h20, mas já pode ser visto no CurtaOn – Clube de Documentários, disponível no Prime Video Channels, da Amazon, na Claro tv+ e no site oficial (CurtaOn.com.br).
“VENTO NORTE”, UM CAIÇARA DO SUL
Depois de ser exibida no Olhar de Cinema, em Curitiba, estreou ontem em Porto Alegre a versão restaurada digitalmente de Vento Norte, o primeiro longa sonoro produzido no Rio Grande do Sul. O drama praiano, filmado em 1951, parece inspirado em Caiçara, da Vera Cruz, realizado um ano antes. Tem nomes importantes na ficha técnica, como o escritor Josué Guimarães, o maestro Claudio Santoro e o galã Roberto Bataglin. Este vive um forasteiro, homem da cidade, que chega exausto à praia de Torres e é acolhido na casa de um líder pesqueiro.
Um quadrilátero amoroso se desenvolve sob a ameaça mítica do vento norte, que prejudica a pesca e traz a morte. O fatalismo conduz toda a história, que culmina estranhamente com uma pena de morte abençoada pela Bíblia.
O filme soa hoje bastante anacrônico, com atuações empedernidas e desdobramentos dramáticos sem pé nem cabeça. No entanto, é uma grande curiosidade historiográfica, um “tesouro escondido do cinema nacional”, como defende o material de divulgação.
O diretor, fotógrafo e montador Salomão Scliar (grafado Salamão no filme) explora com maestria as paisagens litorâneas, o efeito das câmeras baixas para engrandecer os personagens e as imagens em contraluz. Não sei se por conta da própria filmagem ou da restauração, a cópia disponível para exibição infelizmente tem os contrastes muito escurecidos, em prejuízo do jogo entre claro e escuro. De qualquer forma, é um resgate da maior importância.






