Labirinto psicanalítico

AS CORRENTES

As Correntes (Las Corrientes) nos faz um convite inusitado: partilhar o transtorno de uma mulher cujas causas não lhe chegam ao consciente, nem tampouco – digamos assim – ao consciente do filme. Um caso desafiante para psicanalistas e para espectadores.

Críticos têm feito aproximações com Mal do Século, de Todd Haynes, ou com O Rio, de Tsai Ming-Liang. Não deixam de ter razão, mas eu pensei o tempo todo em Um Corpo que Cai. Como não lembrar de Kim Novak quando Lina se atira de uma ponte nas águas de um rio? Ou ver uma caminhada enigmática por um museu ao som de uma trilha à la Bernard Herrmann (na verdade, Venus, de Gustav Holst). Há, ainda, a subida ao topo de uma torre e uma atenção especial às caminhadas dos personagens.

Lina (Isabel Aimé González-Sola) é uma estilista argentina que acaba de receber um prêmio na Suíça. Suas atitudes logo em seguida são surpreendentes, culminando com o salto no Rio Ródano. De volta a Buenos Aires, ela adquire uma fobia à água e entra numa espécie de apatia tanto no relacionamento com o marido (Esteban Bigliardi) quanto no trabalho do atelier. O sexo parece ser a única coisa a despertá-la.

O roteiro da diretora Milagros Mumenthaler semeia indícios não menos misteriosos desde o início: a atenção de Lina para uma máquina de costura e uma pequena tapeçaria; um cisne de pescoço contorcido; uma pequena traquitana que Lina constrói; a relação meio filial com a sogra e uma cliente idosa. Esses sinais só receberão um esboço de significado perto do final, com uma visita de Lina a certa pessoa enterrada no seu passado.

Até então, somos levados por um labirinto de apreensões, com destaque tanto para a expressão vacilante da atriz quanto para os pés das pessoas – obsessão da diretora que relacionei com o realce de Hitchcock ao coque de Kim Novak. Em sua hidrofobia, Lina abandona cuidados domésticos e troca a higiene pessoal por assepsias em estado de sedação. O trauma da tentativa de suicídio, ela também o projeta em outras pessoas.

Por mais esfíngico que possa parecer a quem não decifrar todos os signos psicanalíticos, As Correntes tem atrativos suficientes para imantar nossa atenção e interesse. É mais um exemplo do cinema sólido e intrigante que os argentinos são capazes de realizar.

>> As Correntes está nos cinemas.

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