Neste sábado e domingo rolam as últimas sessões de FLORA E AIRTO: O SOM REVOLUCIONÁRIO e QUANDO A GENTE VIRA UM – MESTRE AMBRÓSIO no Festival In-Edit (SP)
FLORA E AIRTO – O SOM REVOLUCIONÁRIO
O disco com o mesmo nome está para sair, mas o cinema já está adiantando a maravilha que foi a gravação no estúdio Jasmim, em Fortaleza. Repetindo a felicidade que foi registrar a turnê dos Doces Bárbaros e a gravação de Elis & Tom, Jom Tob Azulay levou suas câmeras primeiro para o Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, onde vive o casal octogenário. Depois, para o estúdio, onde a música reacende a chama de Flora Purim e Airto Moreira para mais algumas sessões de música livre e encantadora.
Décadas depois de se apresentar nos melhores palcos e festivais do mundo, tocando com Chick Corea, Miles Davies, Wayne Shorter, Stan Getz, Keith Jarrett e outras feras, eles voltam a burilar os acordes revivendo seus clássicos e criando coisas novas. O multiinstrumentista André Rass abre o baú de Airto, do qual é guardião, e logo ressurge a intimidade do mestre com as traquitanas da percussão. Flora, por sua vez, transcende o cansaço e a saúde frágil quando começa a colocar sua voz nos arranjos em formação.
Enquanto Airto se entrega com disponibilidade à improvisação, fazendo intervenções que redesenham a música, Flora é rigorosa e exigente, buscando a perfeição em cada frase musical. Percebemos essa química, que deve ter percorrido a carreira do casal. Flora, racional e meticulosa. Airto, adepto da liberdade do momento: “Se pensar, não toca”.
Ele se recorda dos batuques na caixa de engraxate com que ganhava a vida na infância paranaense e do pai kardecista que psicografava laudas mesmo sendo analfabeto. Flora evoca a gravação da trilha sonora de Apocalipse Now, da qual os dois participaram. Mas Flora e Airto – O Som Revolucionário não é um perfil biográfico. É, isto sim, uma imersão na vibração criadora dos dois.
Alguns momentos ficarão para sempre na lembrança de quem vê o filme. As memórias táteis emergindo de Airto ao colocar a mão nos instrumentos retirados do baú. As suas pinceladas de percussão oral e instrumental no quadro embevecedor do piano de Egberto Gismonti (em off) tocando Carinhoso. O enlevo de Flora ao ouvir a mesma Carinhoso dedilhada por Ricardo Bacelar, produtor do disco.
Para além de um simples registro, esse filme é o testemunho de um episódio histórico da música brasileira. Uma visita emocionante a dois mitos cujo vigor e cuja cumplicidade venceram o tempo.
>> Flora e Airto – O Som Revolucionário passa neste sábado, 26/6, às 17h30, na Cinemateca Brasileira.
QUANDO A GENTE VIRA UM – MESTRE AMBRÓSIO
Neste domingo (28/6), às 17h, na Cinemateca Brasileira (SP), rola a última sessão desse documentário no festival In-Edit. Sem ambicionar uma revolução no formato, Shinji Shiozaki e Cláudia Dias Perez Machado recuperam com honestidade e simpatia a história da banda recifense formada por Siba Veloso, Helder Vasconcelos, Eder “O” Rocha, Mazinho Lima, Maurício Badé e Sérgio Cassiano.
Desde as origens na década de 1990, fincadas no maracatu rural e no cavalo marinho, até a maturidade atual, ouvimos principalmente os integrantes contarem sua trajetória. Mas também com participações definidoras de Lenine, Fred Zero Quatro e Beto Villares. Os dilemas entre o elétrico e o acústico, as influências afro, a consagração local na Soparia – mítico bar de Recife –, a inserção no Manguebit, a crescente profissionalização, a participação no filme “Baile Perfumado”, a mudança para São Paulo, as turnês internacionais… é um itinerário contado com evidentes alegria e orgulho. Se houve conflitos no caminho, como sói acontecer com bandas longevas, ficaram na poeira da estrada.
A Mestre Ambrósio tem um capítulo singular em sua história. Foi dissolvida em 2004 e retornou inteira dezoito anos depois. A emoção dessa retomada vem na voz de Melina Hickson, força motriz da música pernambucana e produtora da banda nessa nova fase.
O filme tira partido da visualidade da cultura popular e do ritmo contagiante das performances da Mestre Ambrósio. Isso está no âmago da criação do grupo. “Eu pensava: o maracatu é o nosso rock’n roll”, lembra Helder. Ao que o “mestre” Siba ajunta: “Se a gente conseguisse elaborar alguma coisa a partir do nosso lugar, ela podia falar com qualquer lugar do mundo”. Foi assim que eles viraram um.




