Odisseia contemporânea

A Odisseia de Homero já teve diversas versões no cinema. Neste artigo, Márcia Mendonça comenta uma das mais livres e inusitadas: O OLHAR DE ULISSES, do grego Theo Angelopoulos.

por Márcia Mendonça

O Olhar de Ulisses (To vlemma tou Odyssea), título original do filme realizado pelo cineasta grego Theo Angelopoulos em 1995, recebeu no Brasil o nome Um Olhar a Cada Dia – tradução pouco ou nada inspirada. Angelopoulos retoma a Odisseia de Homero, frases de Platão, fragmentos de Romeu e Julieta, de Shakespeare, versos dos poetas T.S. Eliot e Rainer Maria Rilke, e o cinema dos irmãos Manakis, além de algumas de suas próprias obras cinematográficas, para mostrar a trajetória de um Ulisses contemporâneo, situada nos conflitos da primeira metade dos anos 1990 na região dos Bálcãs. O protagonista é A., um cineasta grego que partiu para o exílio nos EUA, permanecendo lá por 35 anos; sua viagem de retorno começa em Florina, na Grécia, sua terra natal – cidade que guarda rastros e vestígios de seu passado.

A. – ou Angelopoulos – empreende uma busca pelos primeiros registros cinematográficos dos Bálcãs feitos pelos Irmãos Manakis, jamais revelados até então. Essa busca transforma-se no pretexto que o conduz a uma viagem existencial ao seu passado, em meio aos conflitos de um presente dilacerado pela guerra na Bósnia. O caráter cíclico da viagem – afinal, ele é um Odisseu – é assimilado desde o início na frase que abre a narrativa: “no meu fim está meu começo”. Uma narrativa marcada por forte dimensão dramática, ética e humanista. Os primeiros registros cinematográficos dos Manakis aparecem logo no começo de O Olhar de Ulisses: intitulado Tecelãs em Avdella, 1905, o filme retrata o cotidiano de mulheres em uma aldeia grega e tem como epígrafe a frase de Platão: “Se a alma quer se reconhecer / Deve-se olhar dentro de uma alma”. Poderíamos pensar nessa frase também como um testemunho sobre a modernidade e seus conflitos.

Um dos mais belos momentos do filme é quando A. recorda-se da mãe, e sua memória se desloca como se fosse o presente. Na tela, em longo plano-sequência, vê-se o “reencontro” dele com a mãe, o pai e os parentes, em diálogos que rememoram os eventos do pós-guerra, “vividos” em um único espaço: a sala de estar da casa da família – um belo “retrato na parede”. Diversas temporalidades são convocadas pelo cineasta. Sobre esse procedimento, ele mesmo declara:

“Não acho que exista passado. Tudo é presente. Tudo volta e volta e volta, queiramos ou não… Há dois filmes que são autobiográficos: Viagem a Citera e este (O Olhar de Ulisses). O meu cinema é memória, de certa forma. É a minha leitura daquele período, não a atual, mas a primeira, a fresca, daquele tempo.” (Angelopoulos, Folha de S. Paulo, 1995)

A viagem tem seu ponto final em Sarajevo, em plena guerra, onde estão os três rolos de filme. Não por acaso, a narrativa é conduzida para esse cenário de barbárie e de morte. É lá que A. – ou Ulisses/Angelopoulos – vai encontrar os filmes perdidos, guardados com enorme zelo por Ivo Levi, diretor da cinemateca da cidade, um colecionador de imagens desaparecidas. É em Sarajevo que ele procura recuperar a inocência de seu olhar: revelar os filmes é trazer à tona o seu próprio olhar que, há muito, está desaparecido.

É lá, também, que ele se lança de maneira trágica diante da possibilidade de viver um novo amor com a mulher que conhece e que desperta nele esse tipo de sentimento. Em um gravador, ouvem-se versos do poeta Rainer Maria Rilke:

“Vivo minha vida em círculos cada vez maiores, / girando bem acima das coisas. / Talvez este último círculo eu jamais chegue a terminar. / Contudo, eu quero tentar.”

Mas é igualmente em Sarajevo que Ulisses se depara com a face sinistra da morte, dos assassinatos, das práticas fascistas e nazistas – inimagináveis diante do projeto de modernidade pensado no século XX. Em meio à neblina que percorre o filme, num momento de trégua e durante um passeio no rio, toda a família de Ivo é executada sob o olhar incrédulo de Ulisses. Não se vê nada nesse instante; apenas a tela branca, coberta pelo efeito da neblina.

Ver ou rever os filmes de Angelopoulos é fazer um mergulho nas muitas possibilidades de reflexão acerca da humanidade que o cineasta apresenta em obras que dialogam, dialeticamente, com a memória, o passado, o presente e com as questões existenciais. Na analogia dos filmes perdidos e na busca para encontrá-los, outro sentido para a existência humana. Um brilhante esforço para tratar temas tão caros e delicados.

O Olhar de Ulisses pode ser visto com legendas em português neste link.

Márcia Mendonça
Jornalista, pesquisadora e professora de História e Artes Visuais

 

 

Deixe uma resposta