Tokyo, eu não te amo

tokyo!

Uma cena do episódio de Bong Jun-Ho

Enquanto o produtor da série Cities of Love não faz “Tokyo, aishite imasu”, esse lugar poderia ser preenchido por Tokyo!, que entrou hoje em cartaz no Brasil. Digo “poderia” porque esta imagem da capital japonesa, vista por três diretores estrangeiros, está longe de romantizar a cidade. Ao contrário, é quase sinistra. 

Tokyo! é um tríptico, o que favorece um desenvolvimento melhor do que os longas compostos de muitos episódios. No primeiro, Michel Gondry exercita suas pequenas magias artesanais em torno da carência de moradia na cidade. Um jovem casal procura emprego e usa a imaginação para se divertir. Mas a moça só vai encontrar pouso quando um estranho fenômeno começa a acontecer com seu corpo. É simpático e nada mais. Gondry, um dos mais superestimados diretores da atualidade, insiste num cinema de lógica pós-adolescente que já dá sinais de envelhecimento precoce. Mas seus fãs incondicionais vão encontrar as gracinhas de praxe.

O segundo episódio é dirigido por Leos Carax. Sim, um dos queridinhos do cinema francês nos anos 1980, que há dez anos não filmava. Carax  faz uma sátira virulenta à xenofobia toquiota através de uma estranha criatura que sai dos esgotos para apavorar a cidade. Denis Lavant está excelente num tour de force de bizarrice que me divertiu, mas bem pode irritar a outros.

O melhor vem no terceiro episódio, do coreano Bong Jun-Ho. Com grande sofisticação narrativa e audiovisual, narra o encontro entre um obsessivo eremita urbano e uma entregadora de pizza em meio a tremores de terra. É o mais bem-sucedido em combinar os ingredientes comuns aos três episódios: o fantástico, as mutações corporais e a reflexão sobre traços de caráter de Tóquio.

Bong Jun-Ho é um dos melhores nomes da nova onda coreana. Não sei quantos filmes dele já passaram por aqui além do impactante O Hospedeiro e do magistral Mother, exibido no último Festival do Rio, já comprado para distribuição no Brasil e concorrente da Coreia do Sul à indicação para o Oscar de filme estrangeiro. Mother faz uma exótica combinação do épico com o patético para contar a história de uma mãe dedicada in extremis a livrar o filho doente mental de uma acusação criminal. Jun-Ho colhe o suprassumo do cinema asiático – da intensidade de Kurosawa à estilização da era digital.    

Veja o trailer de Mother:

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