Três dias em Moçambique

Fotos de CAM e Rosane Nicolau 

Nossa estada na capital moçambicana teve um sabor bem diferente do turismo pela África do Sul. Não só porque as realidades dos dois países não podiam ser mais distintas, mas principalmente porque, em vez de guias e mapas, tivemos um cicerone de primeira. O cineasta e pintor Aldino Languana, que conheci no ano passado quando esteve no Brasil mostrando o seu doc Timbila Marimba & Chope (DOCTV-CLP), reservou três dias em sua agenda para nos apresentar sua Maputo.

No atelier de Victor Sousa

Em seu carro comprado de segunda mão em Durban (como grande parte dos automóveis que circulam pela cidade), reviramos cada beco e ainda nos esticamos pelas redondezas até a savana, já perto da fronteira com a Suazilândia. O bom Aldino gostava de preparar surpresas. Sem avisar antes, estacionava, por exemplo, na porta da casa-atelier do pintor Victor Sousa, cujos quadros eu havia apreciado no Museu Nacional de Arte. E lá vinha o veterano artista, muito à vontade em bermuda e camiseta regata, disposto a conversar pelo tempo que fosse. Em outro momento, Aldino tomava o rumo da cidade próxima de Matola e, sem prevenir a ninguém, desembarcava as visitas em sua própria casa. E lá vinha a doce Amália, sua mulher, a preparar um lanche e abrir espaço na sala humilde para o marido mostrar suas telas.

Na casa de Aldino Languana

As coisas funcionam assim em Moçambique. O tempo é africano, ou seja, sem horários fixos nem prazos determinados. Nada parece grave diante do corriqueiro bordão “não tem problemas”. Aldino me explicou: “Dizemos isso mesmo quando há problemas”. Então é relaxar e deixar-se levar pelo ritmo malemolente da marrabenta, o gênero musical mais popular do país. Desde que, é claro, não se ouse apontar uma câmera para um policial ou um prédio público sem pedir autorização. Nesses casos, um autoritarismo meio envergonhado vem à tona para cortar o seu barato.  

Visitar Maputo é sobretudo visitar as pessoas. A cidade não tem grandes atrativos visuais. A luta pela independência e a guerra civil deixaram feridas não cicatrizadas, e ainda agravadas por governos inoperantes. O centro e a “Baixa” lembram aglomerações urbanas da Baixada Fluminense. Há muitos prédios construídos na época do socialismo, naquele estilo caixote, hoje decadentes e descascados, parcialmente cobertos por coloridos painéis de publicidade. Uma camada de barro, trazida pelos carros da província, recobre o asfalto das ruas como uma pátina de roça sobre a pele da cidade. Algumas esquinas lembram uma Lisboa pequena e antiga que só sabemos de imaginar.

Pode ser uma impressão errada, mas tudo me pareceu mergulhado numa certa inércia. O consumo cultural é bastante incipiente, a julgar pela carência de boas livrarias e pela virtual inexistência de uma boa loja de CDs e DVDs. A produção de cultura, afora expoentes como Mia Couto, alguns artistas visuais e magníficos artesãos, concentra-se sobretudo na música e na dança tradicionais. Tivemos a sorte de assistir ao espetáculo de abertura da temporada da Companhia Nacional de Canto e Dança, uma demonstração de vitalidade nesse segmento.   

Não quis nem tinha tempo de me espalhar pelas praias e ilhas, que são as atrações turísticas mais comumente associadas a Moçambique. Preferi explorar esse núcleo untuoso e evocativo que é Maputo. Se não estivesse com Aldino, dificilmente teria coragem de me meter no tradicional mercado de Xipamanine, um formigueiro de gente, labiríntico e lamacento, onde os curandeiros vão comprar suas ervas e a estética ultra-popular pode ser presenciada em todo o seu esplendor. Sem ele, talvez tivesse que comprar minhas capulanas (os tecidos coloridíssimos de mil e uma utilidades na vida moçambicana) na turística Casa Elefante, e não na mais “autêntica” Casa Pandia, no bairro muçulmano.

O ancião de Catembe e a vista de Maputo no outro lado da baía

Com Aldino fui ver a bela praia da Costa do Sol e fui comer o caril de caranguejo do restaurante Escorpião. Fui ao Espremedor de Laranjas (apelido de uma igreja de arquitetura moderna a la Niemeyer) e ao Jardim dos Namorados, onde os noivos e suas famílias vão tirar fotos, cantar e dançar depois dos casamentos. Fui ao atelier dos escultores de “pau preto” e à Rua do Bagamoyo, onde a cidade começou e o ambiente histórico de dia cede lugar às luzes vermelhas e ao trottoir das “menininhas” depois do anoitecer. Juntos, tomamos o ferry boat para cruzar a baía rumo a Catembe, uma espécie de Niterói pobrinha de Maputo. Entre um assunto e outro, Aldino falava um pouco mais do documentário que está fazendo para a televisão sobre Samora Machel. O personagem é obrigatório, mas se eu fosse o Aldino me interessaria mais pela viúva de Machel, hoje casada com Nelson Mandela. Creio ser Graça Machel a única mulher da era moderna a ter esposado dois homens que mudaram a história de seus respectivos países.

Se não a história, pelo menos a cara de Moçambique atual vem sendo mudada um pouco pelo Brasil em duas frentes principais: a televisão e a Igreja Universal. Um dos edifícios mais imponentes de Maputo é o templo do Bispo Macedo. E não são poucas as pessoas que vêm trocando os cultos tradicionais africanos e o catolicismo pela Bíblia evangélica, ou pelo menos acumulando duas ou três crenças. Aldino entre eles. A TV brasileira, por sua vez, molda gestos, moda e usos linguísticos. Quando eu registrava com minha câmera de vídeo o ensaio de um coro infantil na catedral, uma das crianças alertou as demais: “Sorria, você está na Record”.

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