As novas-pobres

Começa amanhã (terça) na Caixa Cultural-RJ o Femina – Festival Internacional de Cinema Feminino. Entre as atrações, novos filmes de Barbara Kopple, Paula Gaitán, Beth Formaggini e Nina Galanternik, uma homenagem a Helena Solberg e uma oficina para estudantes do audiovisual sobre empoderamento da mulher. Veja detalhes e programação no site do festival. Na sessão de abertura, hoje (segunda) à noite, um belíssimo documentário que segue a tradição do clássico Grey Gardens, vem da Dinamarca mas se passa em Portugal e tem ecos do Brasil.

Mette Beckmann foi concebida no Brasil pelos pais dinamarqueses que no início do século passado tocavam obras no Mato Grosso. Morou até os três anos no Rio antes de se mudar para a França. Sua filha, Anne Mette, cresceu como princesa em Paris e depois se instalou com a família em Portugal. Foi criada para herdar, não para trabalhar. O problema é que a fortuna da família se esvaiu na imprevidência e nada sobrou da herança. As duas vivem hoje num apartamento em Cascais, sobrevivendo de uma pequena pensão do governo dinamarquês, contando trocados para comprar papel sanitário e lamentando pela boa vida que ficou para trás.

A Boa Vida (Det Gode Liv) se conecta imediatamente a Grey Gardens, de Albert e David Maysles, o filme que retratou a miséria de Edith e Eddie Beale. A simetria é quase perfeita: as idades da mãe e da filha, a decadência financeira, a relação de amor e ódio entre as duas. Mas há também diferenças fundamentais: Anne Mette e sua mãe octogenária têm mais relações sociais – ao menos para pedir empréstimos e comprar fiado – e uma consciência mais nítida de sua situação, em lugar do quase permanente delírio das Beale. Sintomaticamente, Anne diz logo no início do filme: “Vivíamos bem, mas não éramos ricas como os Kennedy ou os Onassis”.

A diretora Eva Mulvad filmou as Beckman durante três anos, atingindo um alto grau de intimidade e obtendo registros preciosos do cotidiano da dupla: de uma passagem pela loja de penhores a uma entrevista de emprego, passando por consultas médicas, uma visita à mansão onde viveram em Lisboa e diálogos duros movidos a ressentimentos familiares. O fato de estarem em Portugal, usando quase sempre a língua dinamarquesa, aumenta a impressão de alienação e desenraizamento em torno delas. Uma das melhores sequências se relaciona com o destino a ser dado às cinzas do pai e marido, morto recentemente.

Junto com uma certa perda do princípio de realidade, que vem dos tempos de riqueza despreocupada, as Beckman têm também uma dolorosa percepção do que perderam. Ora culpam-se uma à outra, ora “os comunistas” que lhes teriam “roubado tudo” após a Revolução dos Cravos. Sem qualquer acanhamento, elas expõem em detalhes a precariedade de sua condição, enquanto imagens de velhos filmes domésticos fazem o contraponto com o antigo fausto. A trilha sonora acentua o tom melancólico, embora sejam mais de queixa e raiva as manifestações da falante Anne.

Não que haja no filme uma intenção de metaforizar o caso, mas a crônica dessas “novas-pobres” acaba ecoando também a crise por que passa a Europa, especialmente Portugal. Nas contas do apertadíssimo orçamento das Beckmann, elas ainda convertem euros em coroas dinamarquesas. Talvez um pouco para sentir-se como nos tempos de majestade burguesa e fugir às evidências de um mundo em deterioração.

>>> A Boa Vida passa em sessão aberta ao público amanhã (terça), às 16h.

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