A escritora aqui de casa

Capa OutrorretratosRosane, minha companheira há 34 anos, lança amanhã pela Azougue Editorial seu primeiro livro. Será entre 19h e 21h30 na Blooks Livraria, dentro do Espaço Itaú de Cinema, na Praia de Botafogo.

Foi bonito ver essa vocação literária desabrochar um tanto tardiamente – se bem que nunca é tarde demais para essas coisas. Rosane sempre foi ligada aos livros, como leitora e bibliotecária. A aproximação à escrita começou como um divertimento. Sua irmã a estimulou a inscrever um de seus primeiros contos num concurso da Secretaria de Cultura de Niterói. Quando tirou o primeiro lugar, a moça tomou gosto pela brincadeira e não parou mais de escrever. Está lançando este livro de contos e já tem dois outros prontos à espera de editora: um volume reunindo 50 minicontos e o infantil O Mistério das Marionetes, lindamente ilustrado por Isabel Paranhos. Agora ela pesquisa avidamente para um romance.

rosaneO release de lançamento de Outrorretratos explica que o título, segundo a autora, dá conta da mescla de autoficção, observação e invenção que inspira seus contos. “Posso me reconhecer em um ou outro detalhe de alguns contos, mas o leitor não custa a perceber que estamos no terreno da ficção”.

Diz ainda o release: Os retratos são múltiplos. Os personagens, homens e mulheres, se espalham pelo cenário da cidade, da periferia, do campo e também da pura fantasia, da “lenda inventada”, da fábula animal. Vivem os dilemas do crescimento, do amor, da criação artística, da imigração e da sobrevivência, entre muitos outros. Estão sintonizados com a experiência do mundo ou com os delírios da imaginação, quando não as duas coisas ao mesmo tempo.

Na orelha do livro, o poeta Ronaldo Werneck escreveu: “Autenticar seu universo com escritura própria é o esperado de quem se aventura na narrativa, qualquer uma. E é de quem possui nítida intimidade com as palavras, de quem sabe se utilizar de seu poder encantatório, que se formam os textos deste OUTRORRETRATOS – livro de uma estreante que nos chega devidamente madura.”

Transcrevo a seguir um trecho do conto Vanessa Cristina.

Vanessa Cristina estava em pé junto ao corpo do pai há mais de três horas. Apesar de seus onze anos, tinha consciência de que aqueles eram os últimos momentos possíveis para desfrutar de sua companhia. O enterro de primeira classe patrocinado pelo patrão de Vando chamava a atenção de todos. Flores brancas preenchiam o caixão deixando descoberto apenas um jovem rosto negro que parecia ainda irradiar um raio tênue de vida. A menina rememorava os acontecimentos do dia anterior como se estivesse assistindo a um filme em fast forward – a professora explicando a história de Zumbi dos Palmares, a chegada da diretora na sala, o cochicho entre as duas, a notícia de que seu pai sofreu um acidente, a chegada ao hospital e o som das últimas palavras de um final de conversa entre os parentes:

− … A bala atingiu a cabeça… Bala perdida… Quando extrai dá hemorragia e aí não tem mais jeito, é morte certa.

A principal protagonista  do velório era, certamente, Vanessa Cristina. Vestida com a roupa do aniversário, penteado afro com tranças e lacinhos de fita, sandália dourada e postura impecável, destacava-se entre os presentes. Às vezes, cabisbaixa, murmurava algumas palavras como se fosse uma oração. Na verdade, por analogia, trazia à memória a história que aprendera na véspera sobre Zumbi dos Palmares, porém o herói dessa vez era o seu pai, seu rei, e que também estava morto. 

8 comentários sobre “A escritora aqui de casa

  1. Carlinhos e Rosane,   EStamos no Paraná mas torcendo pelo sucesso da nova escritora. Parabéns.  Na volta, início de fevereiro (nosso ap está em obras) queremos ver o livro. Beijos calorosos. Julio, LIgia e David.

  2. querida Rosane, desejo tudo de bom e de melhor pra voc nessa tua estria! mil beijos daqui da Itlia. Em janeiro estamos de volta e a vou querer ler o teu livro! beijo Celina

  3. Encantador el pasaje que elegiste del cuento de tu compañera. Espero que vengas por Atlántida un día, acompañado por ella, así puedo conocerla. ¿Podrías mandarme otro cuento? ¡Disfruté tanto de éste! Un abrazo, Raúl Gadea.-

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