Memória e melancolia

Avanti Popolo passa hoje às 21h30 na Semana dos Realizadores.

O filme de Michael Wahrman  tem sido apreciado em diversos festivais nacionais e internacionais por sua maneira inovadora e minimalista de se reportar aos tempos da ditadura militar no Brasil. Na verdade, quase nada se fala diretamente de política. Um homem recém-divorciado se hospeda na casa do pai e tenta trazer a luz de volta àquele lugar meio lúgubre e depauperado. A luz vem não só de uma janela que ele procura abrir, mas também da memória que ele quer devolver ao velho através de filmes Super 8 rodados nos anos 1960 e 70 por seu irmão desaparecido há 30 anos.

Que o pai seja vivido por Carlos Reichenbach (sua despedida da frente das câmeras) e o filho pelo pesquisador e professor de cinema André Gatti é o principal – mas não o único – vínculo que Avanti Popolo quer criar entre cinema e política, entre cinema e vida. A presença no elenco do crítico e realizador Eduardo Valente, do “cineasta artesanal” Marcos Bertoni  e de uma cachorra ficcionalmente chamada Baleia acrescenta camadas a esse diálogo, ora bem-humorado, ora quase exasperante. Tudo isso atribui ao filme um valor afetivo importante para quem compartilha o meio cinematográfico, mas a admiração de tantos críticos internacionais indica que o trabalho vai além das referências internas.

O estilo rigoroso do diretor Michael Wahrman (uruguaio que cresceu em Israel e se radicou em São Paulo desde 2004) confere uma personalidade muito própria ao filme, que dentro do panorama do cinema brasileiro parece um objeto melancólico vindo da Rússia ou da Romênia. Além de um longo prólogo filmado no parabrisa de um carro rodando na madrugada e de duas ou três sequências passadas em lugares distintos, o essencial da história é contado através de três composições fixas que se repetem, claustrofóbicas e inalteradas. A “janela” que temos são os filmes Super 8, que não parecem interessar tanto ao velho “Sr. Gatti” (Carlão), mais empenhado em descobrir o paradeiro de sua cachorra Baleia. Nem mesmo ao filho parece interessar tanto o contato com o pai quanto com suas próprias ruminações.

Um sutil processo de substituições se opera. O filho desaparecido pela cachorra, a realidade pelos filmes, a lutas que ficaram para trás pelos hinos remanescentes. É difícil separar o que há de humor e de tristeza em Avanti Popolo. Assim como é difícil prever o que esse filme dirá a uma plateia que não se sintonize com suas pachorrentas idiossincrasias.

Um comentário sobre “Memória e melancolia

  1. Um filme fora das preocupações epidérmicas (e outras), porque subcutaneamente tenta escutar DENTRO e não fora. Wahrman é uruguaio, claro (poderia ser argentino, também: faria do mesmo jeito intenso e profundo). DNA coletivo não é tatuagem, moçada que olha em torno com olhar de paisagem. Estou querendo dizer isso mesmo: que brasileiro — exceto o Eduardo Nunes — no cinema, agora, está interessado (mais do que nunca) só na superfície dos sons aos redores…

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