Ajustando o foco em Rose Marie Muraro

Faleceu ontem no Rio a escritora Rose Marie Muraro, pioneira do feminismo no Brasil. Ela sofria de câncer na medula óssea há cerca de dez anos. Deixou uma bibliografia de mais de 40 livros e, como editora, viabilizou cerca de 1600 títulos. Em 2007, a cineasta Marcia Derraik realizou um doc sobre ela. Pode ser que você o encontre na programação do Canal Brasil. Em 2008, eu resenhei o filme no DocBlog. Escrevi o seguinte:

O título Memórias de uma Mulher Impossível aparece sobre imagens fora de foco. Não deixa de ser um clichê fotográfico para representar a visão precária de alguém como Rose Marie Muraro, que para ler precisa trazer o texto muito próximo dos óculos fundo de garrafa. Mas isso é só um detalhe que rapidamente fica para trás. Seria muito fácil fazer um filme inteiramente “fora de foco” sobre essa pensadora, ícone de transgressão e ideias libertárias no Brasil. Bastava querer retratá-la por inteiro.

Márcia Derraik foi corajosa o suficiente para se dispor à tarefa – e humilde o bastante para procurar o tamanho adequado do que poderia fazer. Memórias… é uma proposta de encontro e audição. Dib Lutfi na câmera e Márcia na escuta. Dessa interação saem momentos reveladores do espírito inquisidor de Rose. Ela instiga Márcia a pensar grande, ao mesmo tempo que repassa à diretora a responsabilidade pelo resultado do filme. A tarefa não é fácil, e às vezes isso se cristaliza na tela.

Rose tem plena consciência – e mesmo uma dose de vaidade – do próprio valor e ousadia. Mostrar-se fragilizada pela doença (“fui perseguida pela morte a vida inteira”) e assustada com a perspectiva do fim iminente da espécie humana (“peguei a doença do mundo”) é uma maneira de continuar agindo sobre a consciência de seu tempo. Lembrei-me de Susan Sontag elaborando sobre sua enfermidade.

Em dado momento, a tela fica escura e ouvimos um momento de crise de Rose. Quando as imagens voltam, Márcia está empurrando sua cadeira de rodas no Jardim Botânico enquanto as duas conversam. Rose carrega uma vassoura para ilustrar sua identificação com as bruxas da Idade Média, mulheres ligadas à transgressão e ao prazer. O filme, então, torna-se tão instável quanto tudo o mais. Não temos o ponto de vista onisciente sobre alguém, mas um olhar solidário que caminha junto. Na relativa modéstia desse doc mora a virtude de um foco bem ajustado.

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