Um mundo úmido

Cães Errantes é um desafio para críticos-narradores e redatores de sinopses. É um desafio sobretudo para o espectador que se dispõe a atravessar seus 138 minutos de cenas longas e sem ação aparente. Se aborrece os admiradores da objetividade, compensa os amantes da contemplação e do enigma.

Numa grande cidade taiwanesa, um pobre alcoólatra ganha a vida segurando cartazes de empreendimentos imobiliários e mora num cafofo com seus dois filhos. Alimentação e higiene precisam ser improvisados em locais públicos, como se fossem cães vira-latas. Três atrizes interpretam o que tanto pode ser uma mesma personagem como três diferentes, pois Tsai Ming-Liang deixou essa decisão a cargo de cada espectador. No fundo, é um retrato de família, mas tão insondável concretamente quanto intenso emocional e visualmente. Uma família em meio à miséria financeira e afetiva, mostrada sem nenhuma retórica, nenhum maniqueísmo. O que se impõe é o conhecido universo expressionista de Ming-Liang, com seus recursos mínimos utilizados em potência máxima.

E aqui chega a um paroxismo o tema da umidade, tão presente em quase todos os seus filmes. Não apenas chove e venta o tempo todo, fazendo com que a umidade nos cenários dilapidados acabe virando dispositivo estético, como também os líquidos entram e saem dos corpos em abundância, sob a forma de bebidas, urina e lágrimas. As pessoas, assim como as casas, estão úmidas por dentro. O ato de comer, por sua vez, passa de recurso de sobrevivência a performance catártica na cena em que um repolho de estimação é utilizado como simulacro de uma pessoa amada. Existe uma similitude – ou continuidade – entre “dentro” e “fora”, simbolizada também no grande painel que sidera a atenção da tal (ou tais) personagem(ns) feminina(s). As pedras do galpão parecem se estender na paisagem do mural.

Há também a questão da duração. Cada plano se estende pelo tempo necessário para que os atores cumpram alguma missão, seja cruzar um trecho de praia, seja devorar uma coxa de galinha até os ossos ou suportar a ventania num entroncamento inóspito. O sofrimento está mais na duração que na intensidade da dor, parecem dizer essas tomadas excruciantes. Em três momentos, cheguei a pensar que o diretor estava abusando do direito de não cortar a cena, mas é preciso reconhecer que, a partir de um certo ponto, a imagem que vemos parece descolar-se do seu sentido mais realista e assumir um caráter de performance artística, uma experiência diferente de duração. A expectativa do corte vira, então, uma estranha fonte de prazer para o espectador.

Tsai Ming-Liang disse que este seria seu último filme. Se isso se confirmar, ele terá deixado um testamento radical e belo, tão ou mais experimental que qualquer de seus filmes anteriores.

4 comentários sobre “Um mundo úmido

  1. Pingback: Melhores de 2014 | ...rastros de carmattos

  2. Carlos,

    A plateia do Cine Joia na sessão de sexta-feira, 20/6, deu um show à parte. No decorrer do filme, pessoas iam saindo em ritmo cada vez mais forte da sala de projeção, até mesmo a poucos minutos do filme acabar. Conversando depois com o gerente, ele me contou que muitas pessoas foram reclamar com ele por exibir “um filme assim”. Houve até quem disse, seriamente, que o bonequinho de O Globo foi pago para ficar de pé aplaudindo ( sic).
    Abs,
    Nelson

    Ps Não sendo um crítico narrador nem um narrador de sinopses, seu texto, bastante sensível à sensibilidade do filme, é excelente e esclarecedor. Tinha dúvidas em alguns pontos. Mas aqui neste filme, muito mais do que qualquer outro, só assistindo mesmo é que se tem a ideia e a emoção que a obra nos passa. Um grande perda se Tsai se aposentar mesmo.

    • De fato, este é um filme que requer espectadores abertos a sua peculiar experiência. Algo que, como você diz, só é possível assistindo. Qualquer descrição ou análise está fadada ao insucesso.

  3. O anterior dele (“Face”) não foi bem resolvido, filmado em Paris. Nesse ele parece voltar ao clima de “Eu não quero dormir sozinho”, mas com duração maior. Ainda não pude ver.

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