Oportunismo e barbárie

Sergio Bianchi costuma estar inteiro e combativo em seus filmes. Em Jogo das Decapitações, ele está em dose dupla através de dois personagens que o representam. Um deles é Jairo Mendes, cineasta maldito dos anos 1970, hoje preso por um crime passional e talvez morto numa rebelião do presídio. Jairo tem um filme perdido e reencontrado, cujas cenas são de Maldita Coincidência, o primeiro longa de Bianchi, um estudo sobre a inércia resultante das discussões ideológicas sem fim. O outro personagem é um jovem niilista (Silvio Guindane) especializado em contestar e duvidar de tudo o que encontra pela frente.

Mas o centro dessa parábola paranóica não é nenhum alterego do diretor, mas sim um jovem mestrando (Fernando Alves Pinto) que pesquisa sobre a resistência à ditadura e sofre uma grande modificação à medida que se depara com a violência social das grandes cidades brasileiras. Bianchi trata aqui de tortura e linchamento, ou seja, a violência do estado e a violência da sociedade. De um lado, coloca em xeque a busca de indenizações pelos ex-ativistas de esquerda, criticando o discurso de vítima e as benesses daí decorrentes. De outro, ataca a selvageria dos justiçamentos sumários que vêm chocando o país recentemente. A decapitação é uma forma de cortar o pensamento, condição fundamental tanto para o oportunismo como para a barbárie.

Quem viu Cronicamente Inviável e Quanto Vale ou é por Quilo?, entre outros filmes seus, sabe o que esperar de Bianchi em sua posição de franco-atirador. Ele bota o dedo nas feridas de qualquer lado do espectro político, com especial atenção para a hipocrisia bem-pensante e a autopiedade produtiva. Nesse novo filme ele leva de roldão as opiniões sobre as cracolândias, as manifestações do gênero “Ocupa”, as iniciativas tipo Comissão de Anistia, os documentários políticos melodramáticos e a transformação de ideais em grifes e produtos.

No entanto, em meio a tantos alvos, o filme frequentemente perde a mira e o foco. O roteiro se compõe mais de esquetes que de um fio narrativo, sendo bastante prejudicado pelas fragilidades da mise-en-scène. As ideias são explicitadas verbalmente ou na forma de placas, faixas e cartazes. Sentimo-nos como se diante de um pregador cínico e cético que aponta o dedo e chama nossa atenção seguidamente. Desafinar o coro dos contentes é atitude sempre positiva, mas não dispensa a exigência da eficácia.

2 comentários sobre “Oportunismo e barbárie

  1. Carlos,

    “Jogo das Decapitações” ( Postado anteriormente no Facebook )

    Por que gosto muito do filme:

    1- Porque solapa/denuncia nos personagens o que mais detesto em pessoas: a hipocrisia

    2-Eu prefiro alguém entrudo, de quebrar louças, que expresse o que realmente pensa do que uma pessoa elegante e sutil plena de dissimulações, fingimentos.

    3- Uma das coisas que mais me entristece no Brasil é saber que a tortura ainda corre solta em certas ( ou muitas ?) delegacias. Isto é um horror contra qualquer pessoa, não importando o delito. E ainda há os casos de inocentes que pela tortura ou até só ameaça, confessam o que não fizeram. E de modo geral são pobres. E muitos, pretos e pardos.

    Outra são os presos enjaulados, onde não se sabe onde termina um corpo e onde começa outro, condenando-os todos à pena de morte ( mas isto é legal no Brasil ?). Nesta situação é de se estranhar que presos se rebelem e até decapitem outros, ameaçando cortar mais cabeças se não forem atendidos em suas reivindicações? Pode-se estranhar o desejo imperioso de fugas? Alguém pode se regenerar diante deste quadro dantesco? O que os autoproclamados revolucionários sem povo por trás, tem feito pra resolver esta questão carcerária gravíssima? E pelas torturas ainda presentes? Dá para negar que as questões levantadas pelo excelente personagem Rafael de Silvio Guindane ( excelente também) coloca? Ele é um alter-ego em parte de Bianchi. O diretor não é senhor absoluto de seu filme. Mais forte são os poderes do inconsciente. Ou do polvo, como já disse Arnaldo Jabor a propósito de seu “Eu sei que vou te amar”.

    4- A exposição sobre barbáries da ditadura militar, da forma em que é feita, para reforçar a ONG, ganha-pão de anos de Marília (Clarisse Abujamra, excelente em suas convicções que dissimulam desespero) que trata das reparações às vítimas da ditadura, não é kitsh, ridícula e simbólica? Chega a ser surreal ver performances com pessoa sendo bastante agredida e outra em sangue num pau de arara ao alto. Rafael lembra a Marília que o Brasil tem 500 anos de violências contra os mais fracos e isto ainda continua na “democracia”, depois de uma classe média que penou por 20 anos. Diz algo deste teor: “Não seria bom convidá-los para também beber whisky e comer canapés aqui com a gente?”. No final levanta o tom, desafiando Marília mais ainda.
    Uma turba invade a exposição e provoca alvoroço obrigando todos a saírem e picham todos os trabalhos que podem. Seriam os sem-whisky e sem-canapés???

    Tudo o que vemos é claro, é uma alegoria. Carrega-se nas tintas aqui. Mas o que é feito de forma dissimulada é escancarado aqui.

    5- Leandro ( Fernando Alves Pinto) tem “uma longa jornada de um imbecil até o entendimento”, como uma peça de Plínio Marcos. Aos poucos vai questionando cada vez mais a mãe. O pai Jairo Mendes ( o resistente Paulo Cesar Pereio, de tantos filmes memoráveis ) viveu plenamente o caminho do desbunde em São Paulo, algo que houve no Rio de Janeiro com os Dzi Croquetes e o mostrado por Hilton Lacerda em Recife em “Tatuagem”. Jairo teve várias mulheres. Na velhice chegou a matar uma, foi preso, houve uma rebelião e não se sabe se ele fugiu ou morreu.

    Leandro, sem emprego, com mestrado perdido, recebe ameaça da mãe em não mais ajudá-lo com o fruto da ONG que ele passa tanto a questionar, tendo então uma obsessão: encontrar o filme “Jogo das Decapitações” que Jairo fez e não se sabe onde está. Imagens de “Maldita Coincidência” , primeiro longa metragem do diretor Bianchi, que ele chegou a definir como o fim da era hippie, pois na comunidade não se entendiam nem para acumular e jogar lixo fora, são empregadas como sendo o filme almejado por Leandro.
    Fernando Alves transmite muito bem este jogo da inocência até as perturbações reais ou oníricas, uma delas lembrando uma célebre imagem de cangaceiros com cabeças cortadas, conforme lembrou um crítico, se não em engano, Cassio Starling Carlos na Folha de São Paulo.

    O filme conta com excelentes coadjuvantes de luxo: Sérgio Mambert, Renato Borghi, Elias Andreato, Maria Alice Vergueiro ( com seu bordão: os reaça estão de volta..). Um defeito do filme é desenvolver pouco o personagem Vera ( Maria Manoella). Suas ambiguidades ficam pouco claras.

    6- Por mais diferentes que sejam em termos estéticos e propostas, “Jogo das Decapitações” me lembra filmes de Rainer Werner Fassbinder.

    Quem não quer spoilers pare aqui a leitura, pois explicarei o porquê desta aproximação.

    A jornada do herói Leandro, depois que ele consegue latas desejadas do filme que podem em parte estar deterioradas, termina de forma trágica. A violência dos pesadelos e a observada na televisão com os presídios mostrando cabeças cortadas, a rua com linchamento, o contacto rude com as pessoas, as ameaças da mãe. a descoberta de um mundo em derrisão, o faz introjetar isto tudo. Numa batida de carro em que ele é responsável, mesmo dizendo que pagará tudo, é bastante agredido em palavras pelo motorista prejudicado. Leandro simplesmente o derruba no chão e bate sua cabeça com força várias vezes, escorre muito sangue até ser contido por duas pessoas. Uma vez preso, provavelmente o filme “Jogo da Decaptações” se alienará.

    Fassbinder tem filmes assim também, em que a jornada do herói termina tragicamente. Temos “Por que deu a louca no Sr. R.?, “Eu só quero que vocês me amem”, “A Encruzilhada das Bestas Humanas”.
    Sobre o primeiro me lembro pouco. Mas o segundo é inesquecível: um pai de família que é a expressão da generosidade ( seu rosto lembra Cabíria de Fellini) fica prensado entre os bens de consumo que a mulher quer ter e os empréstimos que o pai não quer lhe conceder. Bastante alterado, por uma bobagem num bar, acaba matando uma pessoa.

    No terceiro dois jovens se amam a despeito do não consentimento dos pais. Depois de muita peleja optam por matar um dos familiares que põe pedras em seus caminhos desejados. A última cena é uma das mais pungentes que vi no Cinema: a jovem presa pelo delito ainda lembra a criança que foi, que ainda está nela e fica brincando de amarelinha, pulando daqui pra lá, de lá pra cá….
    Abs,
    Nelson
    Ps. Espero não ter perturbado seus leitores com comentário tão longo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s