Marina bem de perto

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Na semana passada realizei um desejo: vi Marina Abramović de perto. Da primeira fila do lado par. Não era nenhuma performance, mas de certa forma era também. Nas palestras semanais que vem dando no evento Terra Comunal do Sesc Pompeia, ela pisa no enorme tablado vazio do teatro como uma espécie de sacerdotisa venerada por seus fiéis. O vestido preto até próximo dos pés, o cabelo preso, a postura inatacável do corpo e o andar firme mas meio deslizante lhe conferem um ar quase sobre-humano.

Ok, posso estar mitificando. Devo estar, mas não é pouco ver ao vivo um corpo que a gente sabe já ter passado por tantas provas, tanta exposição e tantos olhares admirados.

Marina iniciou a palestra pedindo que descruzássemos as pernas, fechássemos os olhos e respirássemos 12 vezes segundo o ritmo lento que ela comandaria:

https://vimeo.com/125342536

Em seguida, nos autorizou a abrirmos os olhos e nos deu as boas-vindas ao “aqui e agora”. Passou a exibir no telão alguns pequenos vídeos e fotos enquanto comentava suas performances, seus “objetos transitórios” e o Marina Abramović Institute (MIA) que está criando em Hudson, perto de Nova York. Discorreu também sobre performances de longa duração de artistas que ela admira, como o chinês Hsieh Tehching, cujas ações costumam durar um ano e perto de quem ela se julga “uma criança”. Por fim, Marina respondeu com muita simpatia a perguntas da plateia e trocou abraços com alguns interlocutores.

Siderado pela visão da diva, não tomei notas durante a palestra. Mas depois apelei à memória para compartilhar com vocês algumas coisas que ela disse. As palavras podem não ser as mesmas, mas foi basicamente isso o que guardei:

  • “Minha primeira experiência mística foi aos cinco anos. Frequentava com minha mãe uma igreja católica e me esforçava para tentar alcançar a pia de água benta. Um dia minha mãe me ergueu até a cavidade e eu não perdi tempo – bebi a água toda”.
  • “Sinto-me como uma nômade, pois viajo o tempo todo. Um pintor pode mandar suas telas para uma exposição. Um cineasta pode enviar seus filmes para um festival. Mas eu tenho que levar a mim mesma. De tão acostumada, já houve ocasião em que me sentei num cinema e procurei o cinto de segurança.”
  • “Só a performance de longa duração pode transformar o artista e também o público. Ela cria um campo de energia especial que afeta até mesmo o visitante temporário.”
  • “Quando as pessoas chegarem para visitar o MIA, terão que assinar um contrato comprometendo-se a permanecer pelo menos seis horas lá dentro. Elas podem não cumprir, claro, mas aí o problema é delas”.
  • “Documentar a performance é importante para ter o registro, mas o vídeo ou a fotografia não são necessariamente arte, pois a performance só se dá perante o público. Um vídeo só é arte quando a performance é feita para a câmera, sem público presente”.
  • “Já experimentei iniciar uma performance quando estivesse no limite do cansaço e da resistência para ver de que maneira a presença do público me reenergiza”.
  • “A reperformance mantém a obra viva para além do seu registro. Além disso, desfaz a noção de autor único, de coisa irrepetível. Ela se repete e sempre se altera quando o performer é outra pessoa”.
  • “Descansar não é fácil. Para mim, isso só é plenamente possível no contato direto com a Natureza. Mesmo quando relaxamos e dormimos, não descansamos totalmente porque o pensamento não cessa. Nós só deixamos de pensar por breves instantes quando espirramos ou temos um orgasmo.”
  • “Os brasileiros têm um temperamento espontâneo que é próximo do nosso nos Bálcãs. Eu nunca fui tão abraçada e beijada como no Brasil. Quando saio daqui, tenho a impressão de que posso ficar 10 anos sem ser beijada e não vou sentir falta.”

Os próximos encontros com Marina Abramović estão previstos para hoje (22) e 30 de abril, com tradução simultânea, entrada franca e senhas distribuídas a partir das 13h do dia.

No Instituto Moreira Salles do Rio está em cartaz um dos melhores documentários sobre arte que já vi, Marina Abramović: a Artista Está Presente, feito a partir da sua já célebre performance no MOMA. Leia aqui minha resenha desse filme.

Um comentário sobre “Marina bem de perto

  1. Estava aguardando seu comentário. Ela é realmente inquietante. Vi uma performance dela em São Paulo há muitos anos e nunca esqueci.

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