A vida, modo francês

Depois da recente mostra de Nicolas Philibert, a Caixa Cultural-RJ nos traz a retrospectiva de outro importante documentarista francês, Denis Gheerbrant. Seis filmes dele integram a programação da Mostra Cine Doc Fr, de documentários franceses contemporâneos, que começou terça-feira. As curadoras Jeanne Dosse e Tatiana Devos Gentile pretendem “estabelecer um diálogo entre realizadores renomados, como Mariana Otero, Claire Simon, Dominique Cabrera, e os que atualmente vêm conquistando cada vez mais espaço no documentário francês – Pauline Horovitz, Namir Abdel Messeeh, entre outros.” Mais detalhes aqui.

Denis Gheebrant, filho do fundador da famosa livraria parisiense La Hune, partiu da literatura para o cinema através do IDHEC (atual Femis), onde é professor sazonal. Ele é adepto da filmagem de um homem só – faz câmera, som e conversa com seus entrevistados. Combina procedimentos do cinema de observação – quando registra interações entre as pessoas diante da câmera – com uma intensa interação dele próprio com os personagens por meio da conversa e do questinamento. Já tive a oportunidade de ver quatro filmes dele, um dos quais não está na mostra: La République Marseille (2009), retrato de cidade condensado numa rua em obras.

Futuros adultos

Dois outros enfocam crianças e adolescentes com uma relação extremamente viva entre câmera e personagens. A Vida é Imensa e Cheia de Perigos (1995) tira seu título da definição saída da boca de um menino de sete anos. Cédric é uma das muitas crianças que se tratam de câncer num hospital de Paris. Por sua precocidade e pela circunstância da cura, ele tornou-se protagonista do filme. Gheerbrant monitora seu longo tratamento, assim como o de outras crianças, num trabalho delicado de aproximação, mas firme na inquirição. A Cédric e aos demais o diretor coloca questões graves como o medo e a possibilidade da morte; faz inquirições sobre os efeitos da doença e das medicações. Preserva as pausas da conversação, reconhecendo nelas uma parte fundamental da relação que estabelece com cada um. A consciência da finitude (ou a falta dessa consciência) por parte das crianças cria um diferencial dramático que Gheerbrant trabalha com sensibilidade.

Grandes como o Mundo (1999), rodado num conjunto residencial e numa escola da periferia de Paris com adolescentes de origem árabe e africana, ratifica uma impressão fundamental sobre o método de Gheerbrant: ele não filma crianças como crianças, mas especula nelas o adulto que poderão vir a ser. Como é crescer? Qual a importância do colégio, da família e da sociedade naquelas personalidades em formação? Como se faz quando se transpõe a grade protetora da escola e se enfrenta a selva lá fora, com crimes, tráfico de drogas e tudo o mais? Gheerbrant joga sua rede pacientemente ao longo de vários semestres para colher os personagens mais expressivos e carismáticos. Como o rebelde Oumarou, expulso da escola por mau comportamento e que rejeita uma vida de trabalho enquanto anuncia, com riso ambíguo: “Sou um futuro delinquente.”

O cinema de Gheerbrant costuma ser associado ao de Eduardo Coutinho, mas as semelhanças são apenas superficiais. Se para Coutinho a entrevista era uma situação apartada da vida real, para o francês ela está mesclada ao cotidiano. As conversas dos personagens com o diretor (olho sempre na câmera) e com os circunstantes frequentemente se confundem e se misturam – seja no hospital, simultâneas a procedimentos médicos, encontros familiares e brincadeiras entre os pequenos pacientes; seja no subúrbio, em meio ao deboche e à algazarra permanentes dos meninos.

O filme mais recente de Gheerbrant é De Greve, concluído em 2014. Esse é um exemplar mais modesto do seu interesse por pessoas comuns. No caso, cerca de 15 camareiras de dois hotéis de Paris que, na condição de terceirizadas, decidem entrar em greve por melhores salários e melhores condições de trabalho. O filme simplesmente acompanha os 28 dias de paralisação (em 2012), a resistência dos piquetes, a intervenção de sindicalistas e o surgimento de apoios solidários. O fato de as camareiras serem em sua maioria afrodescendentes suscita a curiosidade do documentarista sobre sua vida financeira e relações com os países de origem. Ainda assim, é um filme que se limita ao registro, sem espaço para maiores elaborações. Vale ressaltar que, dois anos depois daquela greve, as camareiras conseguiram ser contratadas diretamente pela rede hoteleira, revertendo a terceirização. Enquanto isso, o Brasil vai dando marcha a ré nesse caminho.

Denis Gheerbrant vai ministrar uma masterclass no sábado, na Caixa, e uma palestra na segunda-feira, no Cine Maison (Consulado da França). Serão boas oportunidades de ouvi-lo desenvolver a afirmação de que filma “a ficção do mundo”.

A aparição da Virgem

Gheerbrant à parte, uma atração imperdível da Mostra Cine Doc Fr é A Virgem, os Coptas e Eu, de Namir Abdel Messeh, jovem diretor francês de origem egípcia. Namir parte para o Egito a fim de investigar diversas histórias de aparições da Virgem Maria em diferentes regiões do país. De família cristã copta, minoria no Egito predominantemente muçulmano, ele penetra nas mitologias e na rivalidade mal disfarçada entre os fiéis das duas religiões. Dificuldades com a produção (registradas no filme) o levam a reinventá-lo. Ele decide então improvisar a encenação e filmagem de mais uma daquelas aparições com a ajuda dos parentes de sua mãe numa pequena cidade do interior. É quando se instala um misto de documentário familiar e fantasia neorrealista. O mito é virado do avesso pelo aparato do cinema, fazendo com que um humor muito especial aflore do fascínio daquela gente simples pela ideia de um milagre. Uma maravilha, simplesmente.

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