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Por cinco anos, a perseverante Viviane Amsalem frequenta um tribunal rabínico em Israel em busca do divórcio para um casamento infeliz. O marido, intransigente, recusa-se a concedê-lo porque não suporta a ideia de que a mulher venha a ter outro homem. O JULGAMENTO DE VIVIANE AMSALEM usa a circunstância jurídico-religiosa para expor as várias camadas de opressão da mulher na sociedade ortodoxa israelense. Além de inferiorizada no andamento do processo, perante rabinos bastante lenientes aos caprichos do marido, a esposa depende inteiramente da decisão do homem num contexto em que as noções de “respeito” e “obrigações” falam mais alto que a ideia de felicidade. No fundo, todos estão sendo julgados: o casal, as testemunhas, os advogados. Essa impressão de julgamento totalitário e permanente se adensa no filme pela ambientação claustrofóbica na pequena sala do tribunal. A concentração espacial e dramática se vale de atores excepcionais, de um texto que oscila entre a austeridade e toques inesperados de comédia, e de uma montagem que nos insere completamente no subtexto das reações, do gestual e das falácias dos personagens. Não há câmera neutra, mas sempre pontos de vista pessoais dentro da sala. A efígie da Joana d’Arc de Dreyer volta e meia paira sobre a encenação. Ronit Elkabetz, que dirige o filme com o irmão Shlomi, é uma protagonista que mais ouve e comenta silenciosamente do que fala. Sua sensualidade a custo dissimulada perfuma o julgamento com a suspeita de que, na verdade, estamos assistindo a uma história de vários amores – todos submersos na água escura do fundamentalismo.


A meu ver, a denúncia de O CLUBE contra os crimes e pecados dos padres católicos perde bastante força por retratá-los como monstros de variada sordidez. E não só eles. A crer no conjunto de personagens que passa por aquele lugarejo desolado da costa chilena, é toda a raça humana que chafurda na obsessão e na vileza. Diante de tanto vício e hipocrisia, como mensurar o mal causado pelos abusos sexuais, as mentiras e a ganância dos sacerdotes? O foco da denúncia, mais que tudo, são as estratégias de acobertamento usadas pela Igreja para se proteger das reses desgarradas: isolá-las num retiro de penitência, forjar esquemas de suposta redenção e abafar escândalos a qualquer preço. Tudo isso está lá, mas em tal nível de saturação que o argumento se dilui numa espécie de mundo cão, um coquetel de enfermidades. Algozes, vítimas e meros circunstantes são igualmente doentios e torpes. Pablo Larraín acerta ao conduzir o argumento como uma investigação criminal, na qual, bem a propósito, interrogatórios se confundem com confissões. Mas, ao se avizinhar do filme de horror, mostra seu “clube” não como um microcosmo da repressão religiosa, e sim como um caso de exceção.


SANGUE DO MEU SANGUE (visto no Festival do Rio) é uma bela brincadeira de Marco Bellocchio com dois ícones do cinema transcendental: Joana d’Arc e os vampiros. Na primeira parte do filme, passada no século XVII, uma jovem freira é torturada para confessar uma suposta aliança com o demônio que levou um padre ao suicídio. O irmão do padre vai testemunhar a confissão, mas sua libido é mais forte do que os deveres familiares. Já aí Bellocchio confunde o sagrado e o profano, além de (mais um a) citar a Joana d’Arc de Dreyer. Na segunda parte, ambientada nos dias de hoje, o mesmo mosteiro, depois convertido numa prisão, é habitado por um conde vampiro integrante de uma confraria, que não quer perder o imóvel para um especulador russo. Aqui Bellocchio assume a comédia e faz diversas referências mais ou menos cifradas à realidade italiana. Alguns traços comuns ligam as duas épocas, mas não se trata exatamente de continuidades, e sim de um divertimento livre, um tanto aleatório e totalmente fantasioso. Talvez frustre algumas expectativas de entendimento, mas não decepciona quem espera de Bellocchio a costumeira inventividade e a espantosa sabedoria no uso da música.