Vida de uma voz de veludo

A NOITE DE ALAÍDE

Além de Alaíde Costa, ninguém mais fala de Alaíde Costa em A Noite de Alaíde. Essa tem sido uma opção de vários documentários biográficos brasileiros recentes, como aqueles sobre Belchior e Grande Otelo – e incluo aí o meu Taiguara – Onde Andará teu Sabiá?. Isso explica por que, nesses filmes, não haja análises ou comentários externos. O perfil é montado a partir do que se encontra do próprio artista nos arquivos.

A Noite de Alaíde, porém, recorre a outro expediente para organizar a história da cantora e compositora. Atrizes e atores interpretam Alaíde, sua família e outras figuras da música que participaram de sua carreira. É, como sempre, um recurso arriscado, que pode anular a relação de confiança do espectador no documentário. Aqui, isso é agravado pelo gosto extremamente duvidoso do efeito de solarização e colorização aplicado às imagens. Sempre que esses segmentos retornam à tela, o filme recua uma casa. Como se um choque de aspereza agredisse o aveludado da voz de Alaíde.

Não que seja mal encenado. O elenco toca bem o barco, e a atriz Barbara Maria é particularmente cativante no papel de Alaíde jovem. O tratamento visual defasado, arremedo de animação por rotoscopia, é que me pareceu bastante desagradável.

Ainda assim, é bom ouvi-la contar fragmentos de sua vida – na maior parte em voz over –, da infância no bairro popular carioca de Água Santa, onde era amiga e “concorrente” de Elza Soares, ao sucesso em shows de calouros, barzinhos e em parcerias importantes com Vinicius de Moraes e Milton Nascimento.

Não poderiam faltar os relatos de racismo, como quando foi rejeitada para crooner do Copacabana Palace ou quando a “Ameixa” se sentiu excluída da Bossa Nova, seara essencialmente de brancos. Sua ausência na lista de artistas que se apresentaram no célebre show do Carnegie Hall, em 1962, foi uma dívida só saldada no concerto comemorativo da mesma sala em 2023.

Não sei se a timidez de Alaíde inviabilizou uma maior participação sua em gravações especiais para o filme. Resta uma impressão de que a sua trajetória áurea teria terminado mais cedo do que na realidade. Alaíde, hoje com 90 anos, lançou discos até o ano passado, sendo que o álbum O Anel (2020), com músicas de José Miguel Wisnick, é uma cristalina obra-prima.

>> A Noite de Alaíde está nos cinemas.

Um adendo: Ouvindo Alaíde com atenção, percebi um dos fatores que aveludam sua voz. Ela sutilmente troca consoantes duras por outras mais suaves. Por exemplo: g por c (acora em vez de agora); d por t (tourato em vez de dourado); b por p (popagem em vez de bobagem); v por f (fida em vez de vida), s por ss (precisso em vez de preciso), etc.

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